segunda-feira, 5 de novembro de 2012

No início o Libertango




A nossa singela lista de referências e trocas musicais, acumulada há mais de um ano, é das coisas que mais prezo e aonde ainda dou por mim a recorrer sigilosamente quando preciso de um determinado estado de espírito, ainda que muitas vezes não saiba como lhe fazer verdadeiramente justiça. É algo entre a estima intimista e a pura admiração, confesso. Esta tornou-se para mim quase como um pequeno repertório onde vejo depositada a tua curadoria, o teu bom gosto e tua cultura musical mas também a memória de algo mais. Na verdade o que é que une Led Zepellin e Ryuichi Sakamoto Trio, ou Snarky Puppy’s e Jethro Tull?  O meu Cullum diria “and the difference is you”.

A narrativa de uma música ou de um conjunto delas é algo subtil, criado a partir de uma letra profética compreendida num determinado momento, por um acorde transcendental ou pela recordação de um período muito específico, com tudo o que este acarreta. É talvez por esse motivo que a até então obscura (mas incansavelmente repetida) “Remedy” dos Black Crow me ficará sempre na memória associada a esse dia, já no limiar final do interrail, quando voltávamos no comboio de Bolonha sentados nos pequenos bancos do corredor, na nitidez do pôr do sol do outro lado da janela suja,  enquanto remexias o meu ipod distraidamente - e sabe deus o que mais terás lá encontrado. Contudo lembro-me claramente disto porque reconheceste a banda e, ainda que a música em si não tenha nada de mais,  permaneceu a ideia (que desde então ficou perniciosamente na minha cabeça) de que isto anteciparia as nossas trocas de música de alguma forma. Ou então começou com o Libertango no piano. Sim, agora que penso nisso, definitivamente algo mais do que as nossas partilhas musicais começou naquela pequena igreja na Croácia.

Estas memórias associadas ainda perduram, da mesma forma que durante muito tempo tive o “Local Hero” dos Dire Straits ou o “I Talk To The Wind” dos King Crimson no fundo da minha cabeça, como uma vaga serena sempre que me encontrava contigo; ou como um álbum de Jamie Cullum (sabido de trás para a frente) passou a ganhar uma nova dimensão e a ser associado a esse dia eterno em que fomos de carro até à praia; ou como vimos Sassetti, Laginha e Burmester no CCB dos balcões de cima e foi tão, mas tão bom..

Contudo, como todas as memórias, parece não haver nada plenamente linear e por vezes pergunto-me até que que ponto as minhas recordações não são imperfeitas ou preenchidas com pormenores que não estavam lá em primeiro lugar. Existe por exemplo uma recordação que me assola recorrentemente sempre que oiço determinada lista de músicas, ainda que sobre a forma de uma imagem vaga, porque a associo a um dia de Primavera ou Verão no secundário (deveria ser qualquer coisa como Maio na minha cabeça) em que fomos pintar as telas para fora do pavilhão de artes. Lembro-me que íamos geralmente buscar umas colunas velhas de computador para meter na velha sala e alguns entretinham-se com a curadoria musical apropriada para a aula de desenho; devo ter usado essa lista apenas brevemente na altura e, naquele momento, todo o cenário pareceu fazer sentido. É uma imagem que não me remete tanto para um dia específico (embora claramente vá lá buscar todos os elementos fundamentais), mas para um período e um conjunto de sensações. Era o meu 11ºano e nessa altura sentia-me feliz, descomplexada, serena - ou pelo menos assim o imagino. Talvez todas estas associações sejam agora erróneas e imprecisas mas valerá de alguma coisa a objectividade fotográfica nestes momentos?

A verdade é que ainda que me falte por vezes a habilidade, a segurança ou conhecimento cada uma destas nossas escolhas é como um momento partilhado - e só isso já contém em si história suficiente.


Bernardo Sassetti (a quem recorro agora e sempre para as subtilezas dos estados de espírito nocturnos) e a mulher Beatriz Batarda na imagem.



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