sexta-feira, 30 de novembro de 2012

frio


O caminho para casa à noite é silencioso, à excepção das minhas passadas ritmadas no chão, e agora de uma claridade excepcionalmente fria.

Confesso que me encontrei mais do que agradavelmente surpreendida pela tal casa de chá onde eu e a Sónia, a rapariga de Barcelona, fomos ver a tal sessão de cinema minutos antes. Desconfio que a razão para isso é o orgulho alheio em provar que, sim, Nottingham também esconde os seus recantos inexplorados com cafés quentes e planos culturais ocultos - e estas pequenas coisas ainda me fazem sentir um pouco mais apaziguada no meu quotidiano por efémeras que sejam. Resguardadas com um chá de frutos vermelhos e um cheesecake cremoso a dividir, descemos para uma pequena cave com mais duas pessoas e um singelo projector onde passariam o “The Wrestler” (com uma pungência e crueza que não me abandonou totalmente, mesmo depois de vermos o filme).

Por isso contrasta agora o frio cortante de regresso, ao longo da fornada ordeira de casas entijoladas, que entretanto com o avançar da noite se agudizou ao que julgo serem já temperaturas negativas. Noto que o vapor nos vidros dos carros se transforma numa fina camada de gelo junto à base e dou por mim a desejar (de um certo modo quase masoquista) que esta temperatura desça ainda mais ao ponto de se tornar irreversivelmente vívida. O pormenor mais belo da noite é, porém sem dúvida a lua cheia e o céu de uma nitidez como já não via há muito projectando a sua luz baça sobre as casas. De certa maneira sinto que, sendo ainda uma critatura do “quentinho fofinho”, prefiro estes dias e noites gelados por oferecerem uma honestidade que os outros não conseguem transportar: todos os contornos são acentuados, o espírito e o corpo tornam-se atentos e, ainda que sob as mãos e as maçãs do rosto caia uma anestesia imperceptível, tudo parece mais claro.

Ou talvez seja apenas que pelo frio saiba tão bem o calor humano, por oposição. A simplicidade que as tuas mãos sempre quentes têm sobre as minhas geladas, e o aconchego que é a tactilidade e o calor do teu corpo  contra o meu depois destes serões nocturnos de Novembro é insubstituível. Mesmo o reflexo das tuas acções enquanto paixão, energia e empenho é aquecido pela tua forma de ser.. e esta última estadia em Budapeste só me fez reflectir mais seriamente sobre isto. Encaremos portanto os dias mais gélidos se aproximam com a serenidade do calor do outro lado da espera.


p.s.: devo dizer que os meus pais adoraram o teu postal, és melhor pessoa que esta filha desavergonhada, e terás de desculpar o fim abrupto para a nossa discussão fervorosa ao jantar!



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