quarta-feira, 31 de outubro de 2012

trabalho ou não trabalho, eis a questão


Senti necessidade de escrever sobre a crítica do trabalho, com o afastamento suficiente para as ideias assentarem e a questão ser finalmente engavetada. Já mostrei este texto a outros círculos, e talvez não te mace de todo.

Vivemos mentalizados para trabalhar, desde que nascemos. Por trabalho entende-se um emprego, um ganha-pão, um sustento ou uma ocupação.

Precisamente, ter a sobrevivência garantida implica uma divisão de tarefas, cuja rigidez tende a aumentar quando maiores são as populações. Não é então de surpreender que, num mundo urbanizado, o trabalho seja  necessário. O trabalho pode, no entanto, escravizar, dependendo da forma como é institucionalizado e do seu valor (não necessariamente monetário). Lembro-me agora das sessões de voluntariado que muitos estudantes fazem, não pelo proveito pessoal, mas sim pela mais-valia curricular. Não interessa a satisação, importa é juntar curriculo, e é do nosso currículo (e do seu sex appeal) que somos escravos! Tudo se faz por uma "posição privilegiada", mesmo aceitando trabalhos que se oponham à ética individual.

O trabalho pode ser uma arma chantagista poderosa, niveladora de comportamentos com base na tirania. Se fazes o que o patrão (ou o lucro) quer de ti, vais para a rua, ou ficas a varrer ruas. Só assim se explicam os vendedores de banha de cobra, os campos de concentração nazis, a apariçao dos segways ou os processos dos tribunais a serem ganhos pelos advogados mais caros. Precisamente, não há arma mais poderosa que rotulagem e a discriminação entre as profissões e o risco de uma "carreira arruinada".

Que haja diferenças na renumeração, é compreensível. Na lógica actual, (teoricamente) recebe mais quem tem mais responsabilidade social. Proustitutas, banqueiros e accionistas da bolsa estão, logicamente, fora deste esquema. No entanto, não consigo compreender a rotulagem profissional, isto é, como é que um varredor de ruas (do qual todos dependemos para não sentir repulsa do que nos rodeia a toda a hora) goza de menos prestígio que um dePutado (porque esse sabe falar e merece que o tratem por Senhor Engenheiro) ou uma pole dancer (porque essa dá prazer). Em Portugal, a distinção entre as profissões é quase omnipresente, como mostrava um outdoor publicitário das Novas Oportunidades que, há alguns anos atrás, povoava Lisboa inteira: aparecia o Carlos Queiroz, com o slogan, "se não tivesse estudado, estaria agora a cortar a relva dos estádios". Pois bem, se o anúncio correspondesse à realidade, talvez aquela sumidade tivesse feito bem mais pela Selecção Nacional.

O trabalho não é tudo o que nos define; é necessário mas não deve aprisionar. Faço o que gosto ou o que considero ser relevante para a sociedade, sem comprometer a expressão dos sentimentos, pensamentos, afectos ou ambições num plano maior. De resto, se não tivesse receio de diminuir o currículo, talvez pudesse agir de acordo com aquilo em que acredito.

sábado, 27 de outubro de 2012

dissertações noctívagas

Escrevo-te do meu quarto de paredes nuas, antes de me deitar. Vais-me desculpar esta intromissão fora de horas (ainda que tenha o desconto do fuso-horário e da palermice de quem quer arranjar artimanhas para adiar a subida à cama).

Tenho a dizer-te, pois, que hoje tive um dia pleno, onde nada de extraordinário aconteceu. Uma medianiazinha que só tinha razões para ser insuportável, mas que tem em mim um poder regenerador. Isto apesar de ainda não ter dormido tempo suficiente desde a viagem e das entregas importantes que terei para a semana.

Tenho contado com uma ajuda preciosa: um céu azul profundo, coisa nunca antes vista por mim nestas paragens. Sempre gostei destes dias, secos e frios. O azul reflectido nas paredes e nos vidros e o ar leve e etéreo trazem-me memórias de infância e estimulam o imaginário. Pois bem, hoje ao amanhecer contei com um brinde especial: gelo omnipresente. Subi as escadas, montei a bicicleta e respirei fundo, olhando para as longas sombras que o sol dourado desenhava no asfalto imenso da minha rua. Os vidros dos carros tinham um brilho baço, como se tivessem 300 anos. As rodas da bicicleta faziam crepitar o gelo à sua passagem e as folhas de outono reluziam através dos cristais.

De manhã fiz uma das coisas que mais me abstrai: pintar aguarelas de cenários imaginados. Foi o grupo que me pediu, assegurando que, em contrapartida, fariam a maqueta e todas as outras tarefas. Thank god! Depois combinei com a Irini almoçar mais tarde, para podermos cozinhar sem multidões à volta. Assim foi. À hora marcada (umas tardias duas da tarde,num costume bem latino), eu trouxe uns pastéis de espinafres com queijo gregos congelados que comprara no lidl, que pus no forno. Ela presenteou-me com uma iguaria grega: ovos mexidos com tomate ralado, queijo feta e pimenta. "it is called Strapatsada, which means... I dunno. Ugly face! It isn't that appealing but the taste is óssome!" Enquanto cozinhávamos tentei tocar Schumann na parte do piano que está menos desafinada. Depois da conversa do almoço, prometi fazer para a faculdade a única especialidade portuguesa que me ocorre fazer em terras escandinavas: bife com molho de café com batatas redondas. Tentarei fazer a receita da portugália, para a semana.

A faculdade foi gradualmente ficando vazia. Era noite cerrada e a maioria ainda trabalhava afincadamente. Tomei a indulgência de sair sozinho. As estrelas brilhavam, e não resisti em dar uma volta pelo centro. Não imaginas o quão bem me soube. Sem vento e apenas com algum frio no rosto, proliferavam os cafés e os bares repletos de rostos alegres q.b, os bares temáticos (há sempre algum por descobrir, lembro-me de ti quando vejo algum com collages nas paredes, sofás e recantos docemente iluminados. Como a noite estava calma, voltei a olhar para os interiores das casas. Há sempre uma janela que ainda não se viu, uma estante de livros ou um lustro do tecto novo. Fiquei preocupado porque não consegui levantar dinheiro, apesar de ter tentato 2 bancos. "Refused by your bank", porém, uma consulta da conta pela net diz que está tudo bem... Voltou-me à mente o fantasma da bancarrota, pelo que tentarei abrir uma conta por cá na segunda ou assim que for possível.

Cheguei a casa sob o crepitar ensurdecedor (e reconfortante) dos foguetes distantes. Lá em baixo, os vizinhos vietnamitas comiam e bebiam alegremente. Ofereceram-me vinho tinto francês, com o qual brindámos no registo trilingue, "skol; à nossa; iaô". Apesar de comunicarmos pouco e mal no que diz respeito às palavras e urros animalescos, há entre nós uma certa empatia. De que eles são bons vizinhos, não tenho dúvidas. Deitam as mãos à cabeça quando me vêm a fazer o meu arroz, mas o que se há-de fazer?


indelével.





Acordei a meio na noite sem muito sono, surpreendida por constatar que eram 3h30 da manhã. Não sabia bem o que fazer com aquele tempo embora o “1984” que me absorvera não poucas horas antes permanecesse como um convite permanente em cima da cabeceira. Levantei-me, a voz ainda áspera e enfraquecida - pelo menos algo é certo na Grã Bretanha e isso é a desinibição com que um chá quente em qualquer altura parece resolver tudo, principalmente se for para apaziguar a garganta ou o estômago meio da noite. Procissão meio dormente à cozinha com a chaleira a aquecer, casca de limão, leite, mel e uns suspeitos biscoitos de gengibre a rematar o pequeno conforto caseiro. Estava satisfeita com aquele pequeno luxo e, antes de voltar para o quarto, espreito furtivamente entre os estores para a rua.

Estava a nevar.

Mas era uma neve quase indelével, flocos tão finos que pareciam de uma leveza insustentável, comandados aos caprichos do vento. Decerto que de manhã não permaneceriam para contar a história, porém era belo e único na mesma, talvez até por causa desse fragilidade momentânea. Nevar é algo que nunca acontece em Lisboa (vi-o apenas uma vez e foi na Bélgica), daí o meu provincianismo ainda perante o fenómeno.. ou talvez fosse apenas pelo momento furtivo em que acordei e reparei nisso mas de pouco interessa o contexto. Mudei-me para a minha janela com vista para o telhado e abri-a: do ponto onde estava ainda sentia o quarto quente (tinha um aquecedor mesmo contra as minhas pernas) mas sentia a sensação agradável de frio contra a cara enquanto sorvia o meu chá em pequenos golos. Por instantes a neve intensificou-se e começou a acumular-se imperceptivelmente no telhado; um floco ficou preso no meu cabelo mais do que uma vez.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

De Passagem


Curiosos esses momentos de passagem, como os que descreveste no teu texto anterior e digo-o porque tive um momento de igual simetria quando me despedi de ti da última vez que te visitei, enquanto esperava no aeroporto de Copenhaga para apanhar o meu voo.

Lembro-me com uma nitidez notável desse momento embora tenhas descrito tal experiência com uma eloquência que eu, até então, não conseguira pôr pelas palavras certas. Julgo que sempre senti uma espécie de fascínio alheio por contemplar pessoas em pontos que são tão somente de efémeros, de passagem: seja no exercício de olhar para a rua distraidamente, sorvendo um café tosco no metro em hora de ponta ou enquanto se espera por um voo num aeroporto com as dimensões do de Copenhaga. Nessa altura, entre a saída de Lund onde ainda me perdi um pouco nas ruas até chegar à estação e o comboio até à estranho reino da Dinamarca, tive medo que o tempo não chegasse mas dei por mim com uma margem entre a minha chegada e o momento de embarque pelo que me contentei em procurar o sítio para comer mais perto e lá me instalar confortavelmente. Não sei se é possível usar o termo “estar confortavelmente instalado” num Burger King de aeroporto, principalmente quando o almoço é forçado às 11h30 da manhã apenas para escapar à arte de pagar refeições em qualquer voo da easyjet, mas pelo menos pareceu-me a única solução óbvia naquele momento.

Comida à parte, o sítio não era mau de todo. Em vez de estar toscamente enroscado num canto a cheirar a fritos, tinha uns bancos solitários virados para um estrado de vidro com vista directamente para as entradas constantes de pessoas no check in num piso acima, o que ajuda este peculiar modo de contemplação. Retirei o pequeno diário gráfico que decidira usar para essa viagem não sem alguma reminiscência. Fora o mesmo caderno que usara para relatar o nosso interrail há praticamente um ano atrás (na verdade, um ano e um bocadinho na altura) e, tirando um pequeno considerando que fizera antes de partir de Lisboa, essas eram as únicas memórias que este continha. Na verdade gosto de cultivar a psicologia de um diário gráfico, já que são um pequeno prazer meu. Tenho por exemplo três zap books amarelos exactamente iguais e estandardizados no momento em que os comprei, e todos eles contêm um tom diferente (nem que seja pelo tom da capa que há muito deixou de ser aquele amarelo imaculado): uns são quase esquizofrénicos na amalgama de apontamentos misturados com desenho rápido, outros estudadamente cuidados, outros mais caricaturais. Mas este caderninho contava uma história ainda mais intimista e querida - a sua psicologia sabia-a de cor.

Sentei-me a tentar desenhar as pessoas em puro movimento, a tentar agarrar e sorver um instante que se perde enquanto tomamos a posição de voyeur camuflado, e ao mesmo tempo ia digerindo na minha cabeça o tempo que acabáramos de passar juntos. Foi tão bom, quase como se nunca nos tivéssemos separado mas estas contemplação era em si um apaziguamento da despedida. O futuro pareceu-me nítido e não encontro outra forma de o dizer, mas foi isto que eu senti. Brinquei com a ideia de, de facto, nos mudarmos eventualmente para Copenhaga e lá trabalharmos juntos, quem sabe - ou outra coisa qualquer, o que fosse.

Mas nesse momento de passagem a única coisa que senti foi uma súbita e clara segurança. E tudo o resto vem por acrescento.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

charme operário I


as pessoas vagueavam em rumos diferentes, quase chocando umas contra as outras no aeroporto de Stansted. 

na condição nómada, a única que me unia a todos os passageiros que me rodeavam no frenesim, pouco nos distingue das tribos mongóis ou ciganas das estepes. é uma condição estranha que nos faz todos diferentes, todos iguais. todos iguais pela ausência de marcas que deixamos à nossa passagem, isto é, na materialização daqueles instantes. todos diferentes, porém, naquilo que nos move.

precisamente, nada pode haver mais belo que esta viagem à Grã Ilha. apenas porque eu viajava para te encontrar, da mesma forma que partiste na minha busca, mesmo com todo o atrito que encontraste pelo meio. se isso para ti saiu caro, para mim não tem preço.

aquilo que te quero expressar por palavras é talvez aquilo que possívelmente só ficou nas entrelinhas até agora. quero agradecer-te todo o passeio. mais do que matar saudades em todos os 'pequenos' mimos, tenho particular admiração pelos grandes gestos. falo da aula que deixaste a meio, das panquecas apressadas, da arriscada subida ao telhado, dos morangos e do sushi. vim para estar contigo, mas a maneira como embelezaste cada momento da minha estadia deixou-me ainda mais feliz.

Até logo.





Nunca gostei de despedidas, mas não há dúvida que estas podem ser memoráveis no meio destes (pequenos) intervalos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Impressao nao catalogada




Sento-me na solidão da casa e por alguma razão apenas esta constatação sabe-me profundamente bem hoje, como se possuísse qualquer forma de controlo abstracto sobre as coisas que me rodeiam, nem que seja apenas pela serenidade que me transmitem (ora aí está, como tu bem fizeste notar, uma noção muito minha). A música preenche-me os ouvidos e a alma sob os auscultadores e por alguma razão dou-me conta que tinha saudades de estar a sós comigo mesma, nem que apenas mentalmente, quanto nem na nossa cabeça temos espaço para nós perante os horários e entregas. Ultimamente é Jack White quem me leva a esse intimismo com a guitarra, sem qualquer pretensão de algo mais, e quando tenho tempo para ouvir as tuas escolhas musicais (sempre incrivelmente depuradas sem dúvida, uma lista que aumenta constantemente no meu espólio e que prezo com reverência inestimável), fico-me com a peça de Louis Sphor que até agora nem teria ouvido falar. Comprei manteiga e fiambre no indiano aqui do lado e no caminho trouxe um Mateus rosé que me deu uma felicidade alheia de contornos mais caseiros. Porém, a absorção em todos este pequenos pormenores não me desviam do pensamento de fundo, da ideia que nosso encontro é cada vez mais nítido e está a um dia de distância. A uma manhã em Londres de distância, o que é ainda mais peculiar.

O dia correu bem, fui finalmente  à mítica aula teórica e acabei fascinada pela presença deste meu professor e desta minha cadeira que até agora tinha metido em segundo plano. Aqui dá-se de tudo um pouco para contextualizar a “cultura visual”, desde a transição para a cultura industrial até aos primórdios do cinema - não é surpresa que ele passe por todos estes temas, apenas o modo como o faz no meio de puro cinismo britânico no seu melhor. Com charme até e isso é dizer muito para uma aula teórica que ocupa a sexta feira das 10h da manhã às 14h da tarde. De resto, eu própria tento fazer a minha catarse após os últimos dias da maneira mais básica e primordial que me lembro: tendo uma boa refeição adiada e dormindo uma senhora sesta chegada a casa após a apresentação. Não pretendo levantar demasiado o véu sobre um dos sítios aos quais de pretendo levar sem dúvida alguma pelo ambiente e familiaridade, mas posso dizer-te que o serão com as raparigas soube muitíssimo bem e que comi dos melhores hamburgers caseiros dos últimos tempos (uma combinação com queijo de cabra, batatas igualmente caseiras e a omnipresente cerveja). De resto cheguei ontem a casa pesada, caíndo na cama sem vergonha ou pretexto até às 22h, altura em que te liguei - e como se diz, o resto é história.

Agora irei a uma inauguração no museu de arte contemporânea de Nottingham, para dar algum crédito ao meu “euzinho diletante e pseudo intelectual” negligenciado nestes dias, e talvez haja tempo para um copo à noite depois disso desde que não comprometa a minha saída às 6h da manhã pura. Que te posso dizer? Espero que te encontres bem, de mala aviada já agora, para que possa aguardar a tua chegada no aeroporto amanhã com tudo a que há direito. Este é portanto um até logo.

Grande beijo


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Last train to London


Cai a noite em Lund, com a habitual falsa serenidade. A cidade move-se em passo acelerado, sem claustrofobias ou sobressaltos doentios. O ar é puro, tal como os arcos românicos da catedral e os enxames de bicicletas e peões que obrigam os autocarros e todo o tipo de rodas motorizadas a deambular ziguezagueando. É uma imagem caótica que as grandes janelas da biblioteca modernista e racional me mostram. É um caos organizado, circunscrito numa malha ordenada, aquele caos necessário para o encanto, sem desorientar ou causar desconforto. Mas depois caio em mim e penso porque nada me parece beliscar neste momento. Porque a sensação de te ter nos braços está a menos de três dias de distância, independentemente do caos ferroviário da senhora Thatcher. Por mais carris, ramais, pistas de aeroporto, adaptadores de tomadas e mares que nos separem, só imagino um caminho. Assim seja!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

são os mesmos 21?




Sempre apreciei as considerações que acompanham os aniversários. Com pensamentos mais ou menos festeiros, é pretexto para se dizer, "agora é que é, antes dos <introduzir idade actual- 1> era uma criança!". O sentimento de importância recém adquirida e apavonada apodera-se sempre do mais cândido dos aniversariantes jovens (e afins).

Digamos que os <> da programação aplicada do técnico estão cá por motivos pouco ou nada geek, apenas traduzem uma função que é quase constante até a uma certa idade. Vejo, com algum alívio, que talvez passes pelo mesmo que eu, não sei. Vou-te explicar: também não sinto nenhuma diferença pós-aniversário, tirando os mimos recentes, que rejuvenescem, e uma tentativa auto-imposta da crença na superação. Precisamente pelo rejuvenescimento, digo para mim próprio, "calma, sou um ano mais velho, preciso de me sentir como tal!" Sim, é claro que antes do inter-rail era um puto. Basta olhar para as minhas (e as nossas) fotos. Ou para fotografias mais antigas. Eu noctívago do secundário. Eu vestido de escuteiro. Eu com os primos. Eu abraçado à mãe. Mas nem é preciso fazer tanta retrospectiva, porque, na verdade, tendo a bipolarizar o passado e o presente. Na tentativa rebelde e instintiva de ganhar maturidade, tendo a descomprometer-me com o Tomás ingénuo que cá andava. Não fui eu que me deixei enganar pelo senhorio sueco no quarto bolorento. Quer dizer, sou, mas já não sou bem o mesmo. Também não fui eu que usei um gorro do super-mário em festas. Agora vivo no estrangeiro, sem depender da roupa e da cama lavada, e quase me esqueço da sanguessuguisse monetária, tal é a minha ousadia pós-adolescente! Uh, watch out, we got a (grown) beard over here!

Gostei imenso da tua reflexão pós-aniversário. Foi saudável. Tens uma maneira talvez um pouco escandinava, bahaus, racional e asséptica de expor as tuas emoções, que se estranha mas depois entranha-se. Uma leitura desatenta quase que faz entender que desenhas geometricamente as pessoas à tua volta numa oval que queres que seja perfeita e equilibrada. Umas são mais próximas do que outras. Tomás, este é o teu lugar, não te mexas, fica alinhado na oval. Assim tentas gerir a tua "casa". Falas dos twenty something, como se a não erudição fosse um handicap. Será? "devias ouvir música mais erudita" é dos piores comentários que se podem fazer e são motivo de arrependimento profundo (e de um pedido sentido de desculpa). É que tal afirmação pressupõe o total desvirtuamento do propósito da música. A música existe para ser sentida e ecoar emoção e afecto (ou trash metal e massacration). Em puto (e não tão puto assim), fui envergonhado várias vezes com um "não acredito que gostas disto". Fará sentido? Anos volvidos acho que não. Repara como novamente me estou a apavonar na condição de pretenso adulto.

Vou apenas tentar discernir que os twenty something significam para mim, e espero que não me leves a mal. Dizes que a nossa geração vai ter trabalho, casamento e filhos? Não tenho tanta certeza. O emprego (estável e onde se quer) é uma miragem, os filhos rareiam (e, sendo raros, são preciosos entre os presentes, pelo que são cada vez mais mimados e apaparocados). O casamento, então, será a coisa mais rara (e cada vez menos apreciada entre os conterrâneos). Cada vez mais triunfa o culto da paixão, do descartável e descomplicado e do prazer do momento, em relação à fé no verdadeiro amor. Como raramente se acredita no amor, vivido, sentido, acarinhado e trabalhado, também é raro acreditar-se no casamento.

Twenty something, para mim, é um cheque em branco à autonomia. Mas é, acima de tudo, a fase das grandes escolhas. Pode, por opção, ser a altura dos sonhos bem intencionados e da busca por um mundo (exterior e interior) fractalmente melhor. Digo fractalmente, porque os grandes projectos não se medem no tamanho nem na influência. Na solidão, no desemprego, na miséria ou no fausto, há força para remar contra a maré ou deixar-se levar.

Twenty something, é certo, mas posso escolher, bem à Benjamin Button, ser ingenuamente infantil e velho do Restelo cauteloso ao mesmo tempo. Posso ser várias idades ao mesmo tempo, visto que nem serei adolescente nem adulto. Posso ser intemporal naquilo que sinto, ou simplesmente infantil e pateta, se contar com a Ajuda do Público. Espero que assim seja a paixão que sinto por ti.

21





Os 21 vieram e os 21 foram, porém só me dei conta disso tarde de mais.

Em vez de ser antecipada, temida, planeada ou simplesmente evitada, esta data aproximou-se suavemente e depois voltou-se a ir embora como mal tivesse deixado um rasto mais profundo. O que pode parecer algo estranho de se dizer, ingrato até, quando o fim de semana fugiu por completo da rotina quotidiana: os meus pais e a minha irmã vieram-me visitar a Nottingham, matámos saudades, mostrei-lhes a cidade e explorámos os arredores. Comi talvez o melhor ravioli que alguma vez experimentei (um misto de molho suave de avelãs acompanhado de bom vinho que tanta saudade me tem deixado), fomos presenteados com um céu limpo que concedia uma nitidez notável a cada impressão, visitámos ruas mimosas, pubs históricos, catedrais luminosas e a imponência de algumas casas aristocráticas britânicas. Babei-me com a minha nova máquina linda e encontrei o livro que procurava à meses, uma bíblia da inspiração visual no design editorial.

No entanto não deixou de ser um encontro caseiro, talvez na medida em que estas pessoas são de facto a minha casa num certo sentido ou pelo menos têm-no sido sempre até agora. Talvez tenhas ficado um pouco envergonhado por me teres ligado sob um lapso de dois dias de antecedência a dar-me os parabéns mas tenho de confessar que, para além da piada deliciosa que achei no momento, quase que poderia ter sido eu a fazer esse telefonema para mim própria (além de que ouvir-te naquele momento, no limbo dos lençóis antes de adormecer, era algo que guardava com uma saudade/quase alívio que nem sabia que tinha - mas isso é outra narrativa). Não é que não me lembrasse dos meus anos, do dia, até da semana. Simplesmente dava por mim a esquecer-me de sentir que era o meu aniversário sem ser por nada exterior a mim. Como te disse, admiro profundamente a preocupação e esforço da minha família em vir cá apenas para celebrar esta data comigo e até fiquei admirada com a quantidade de pessoas que se lembrou de me dar os mais singelos parabéns, contem eles o que contarem na era do facebook. Mas foi apenas esta serenidade quente que senti e logo passou com a mesma leveza. Talvez seja normal. Ou talvez ainda, acaba de me ocorrer, seja assim que é suposto ser nos anos seguintes, os pós 21 (pelo menos até entrar nos ressentimentos dos 40)

É estranho porque é algo completamente diferente, mas ao mesmo tempo surge como a coisa mais natural. Nas próximas duas décadas provavelmente nós ou a maior parte das pessoas que conhecemos estarão instaladas nos seus empregos (mais ou menos confortáveis consoante as expectativas e o trabalho), iremos receber convites de casamentos e começar-se-á a falar em crianças. Porém não digo isto como qualquer forma de consideração temerária, no modo ressequido de um velho do Restelo. Mudanças importantíssimas acontecem neste preciso momento com esta nossa primeira estadia independente no estrangeiro, o limiar da faculdade à porta de entrada, e tudo o que fazemos diariamente para mantermos a nossa relação à distância. Talvez esteja por isso demasiado ocupada com o que está a acontecer agora para ter qualquer juízo sobre um número que é apenas abstracto.

Julgo que é apenas o simbolismo. É o twenty something de um Jamie Cullum em pleno secundário (talvez não seja erudito mas foi, e é, algo que por alguma simples razão se tornou pessoal nessa altura) e sentir que isso parecia profundamente distante, materializando apenas a ideia que qualquer jovem adolescente tem dos “vinte anos e qualquer coisa". É que uma coisa é vinte - mas o something, o “qualquer coisa” é diferente, não se define. No ano passado fui levada a participar nesta grande festa conjunta e dei por mim com a nítida sensação de que estava no rescaldo de algo diferente: era o pós interrail, o início do nosso namoro, o início do terceiro ano de faculdade e de repente estava a ajudar a organizar o tipo de evento massivo (aos quais costumo fugir) que reunia quase todas as minhas esferas de amigos e conhecidos. E teve de facto toda a importância porque tudo mudou e tu mudaste-me. No meio do ruído, tu fizeste a diferença.

Agora a mudança continua mas de forma indelével. Não me atrevo a dizer que é uma questão de maturidade, mas pode ser que seja algo próximo.

Blackbird




não sei porquê mas neste momento não te poderia mandar outra coisa.

domingo, 14 de outubro de 2012

a noite no cais

a noite estava fria e o vento soprava da água. a escuridão, essa película quase omnipresente, tapava-nos a vista, se não fosse a lanterna que o barqueiro nos apontava a face. a luz era branca, fria e ofuscava. no entanto, das barbas brancas esboçou-se um sorriso:
- are you going to the boat trip? com'inside!
assim foi. o barco agitava suavemente e chocava repetidamente contra o muro de pedra. tomámos o nosso lugar, bem junto à amura, de onde se via a cidade em todo o seu esplendor. quando o motor começou a tremer e a arrastar o barco para longe do cais, a irini apontou para o relógio do telemóvel, fascinada: era o relógio que mudava das 22:59 para 23:00. mas eu tentava abstrair-me da precisão matemática dos segundos, tentando alongá-los no sentir e no olhar.
a cidade desfilava nas duas margens do porto, enquanto o barco cortava a água e o vento. o frio era implacável e entrincheirava-se em qualquer frincha do casaco, anestesiando-me os dedos das mãos. mas, ainda assim, tentava abstrair-me de assuntos interiores, porque algo de belo acontecia naquele momento. era uma sucessão de armazéns de madeira e tijolo, aninhados uns contra os outros, acompanhando a água. as janelas faziam adivinhar o interior, convertido em casas, iluminadas no interior por luzes quentes e suaves. viam-se as traves de madeira e os ferrolhos, que já não guardavam contrabando, mas sim uma cozinha Ikea ou uma cadeira Alvar Aalto. as pessoas acotovelavam-se em filas civilizadas para entrar nos museus que, naquela Kulturnatten (noite da cultura) estavam abertos até tarde. aqui e ali iam aparecendo torres de igrejas, de silhueta caprichosamente trabalhada, árvores e jardins amarelados pelo Outono, a ópera, o teatro, a biblioteca nacional e os palácios reais. a cidade exibe-se, e braço de mar do porto é a passarelle do seu orgulho. é quase que um museu com quadros expostos nas suas paredes. se antes menosprezava o passeio de barco, fiquei com outra percepção de copenhaga. 
o frio espermia e oprimia. era um combate inglório, um bend and break adiado. quando voltámos ao cais não fui o único a suspirar de alívio. fomos a correr para o Danish Architecture Centre para nos aquecermos na livraria, onde não muito tempo antes tinha acontecido um concerto de free jazz. Não nor iríamos alongar certamente, pois tínhamos uma festa à nossa espera na sala de concertos underground mais famosa de Copenhaga: Vega. a catarse da volta pelo porto, e a memória da cidade à noite, porém, já nos acompanhavam.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Amen




JESUS2000 from CRCR on Vimeo.

Já tenho internet em casa, só para que saibas. Deve ser um milagre. Permite-me já agora partilhar o blog destes senhores que é de deixar qualquer afixionado de ilustração a babar-se pelos queixos http://blog.crcr.fr/ 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

London - IV


Esta imagem é dolorosa e, ao mesmo tempo, inspiradora: a catedral de São Paulo escapou incólume às bombas nazis, como um fénix que renasce das cinzas. É a imagem de uma cidade que resistiu estoicamente a todas as privações impostas por um regime que, mesmo para quem não acredita em valores absolutos, encarnava o mal. Se algum Assange tivesse, através de um Nazileaks qualquer, denunciado as verdadeiras intenções por trás da "paz por 100 anos", Chamberlain talvez não tivesse assinado o tratado e tudo isto tivesse sido evitado. Mas com fé, a esperança mantém-se.

What is meant to be will be





Hoje o entusiasmo projectual encurtou dramaticamente as horas de sono mas estranhamente não o estado de espírito. A noite pertenceu às ideias e experiências, a manhã foi recebida com cereais low cost    e até com gratidão e a tarde prolonga-se serena e sob bons augúrios (contando com uma sesta pelo meio provavelmente). E a perspectiva de desenho livre (também conhecida no meio académico como "desenho de rabos e pilinhas, módulo I”) no final do dia deixa-me relaxada, mais do que outra coisa. Thus, everything is everything.

Eternal Sunshine of the Spotless Mind






Este vai sob a categoria de filmes que gostava mesmo muito de voltar a rever. Curiosamente, a cama na praia desde há um ano e um mês para cá, que passou a ter uma poética ainda mais sublime.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Margarita Tatcher is dead.



Parece-me estranho pegar agora nos relatos de ponta solta dos dias que por aqui passo principalmente quando estão espalhados por semanas, mas a memória é imperfeita e assim é a minha escrita. A verdade é que este é um diário pelo intimismo com que te escrevo, como se permanecesses a extensão dos meus pensamentos, porém ao mesmo tempo é tudo menos um diário no sentido literal que necessita da persistente devoção e actualização do dia a dia. Não tenho essa pretensão; os meus relatos são histórias diferente, impressões vagas ou simplesmente considerações mas espero que no fim contem todos a mesma história coerente. Permite-me assim recuar uns dias.

Saímos os três nessa noite fria de sábado. Eu, o Henrique e a namorada dele que viera de Londres para passar o fim de semana alargado connosco, o que até sabe bastante bem confesso. É curioso como a ordem das coisas flui naturalmente apesar de o espaço da casa não parecer grande à partida. Geralmente metemos alguma música, abrimos uma janela, o Henrique põem-se a fazer o jantar e eu fico com a loiça - e apenas recentemente comecei a questionar essa ordem natural, não pelo que é (isto é, a minha prática obviamente deficitária na cozinha) mas como uma questão de orgulho do género. A verdade é praticamente todo o homem que conheço cozinha melhor do que eu, sendo tu o verdadeiro culpado pelo estereótipo e alto padrão que criei. Porém, a bem dizer, qualquer ser humano o consegue.

Espera, deixa-me assim parafrasear de novo: todo o Homem cozinha melhor do que eu.

Ainda assim fomos sair sob convite inesperado: aparentemente a comunidade veggan que existe praticamente à frente de nossa casa abre portas às sextas e domingos sob forma de bar barato e convívio aberto a quem se queira juntar de boa vontade. Porém em minha defesa devo explicar como algo tão próximo nos escapou de forma tão óbvia. É que os vestígios do sonho industrial britânico, com as suas casas de tijoleira de subúrbio simetrica e ortogonalmente alinhadas até perder de vista, é particularmente evidente no meu bairro (senão mesmo paradigmático), pelo que se torna difícil fazer qualquer distinção evidente. A proposta foi-nos lançada pelo rapaz checo de belas artes, o Nicolas, e pelas colegas de casa dele que apenas conhecia de correspondência (na verdade, quase estivemos a partilhar casa nesse desespero inicial que foi a busca por alojamento). Assim a proposta era apenas um copo de qualquer coisa do outro lado da rua.

Está uma noite extraordinariamente limpa, nítida até, mas o frio é de cortar à faca o estreito espaço entre os agasalhos. Ao gelo da noite contrasta no entanto com o calor do interior e do homem (provavelmente gerente, coordenador ou apenas dono da casa) pelo modo como nos recebe, explica o conceito do espaço, e fala pelos cotovelos. O ambiente é pouco ortodoxo em alguns aspectos porém há nele algo de familiar, como se todos já se conhecessem de algum modo, o que se revela uma boa descoberta. É literalmente o espaço de uma casa convertido quase em sala aberta para esta comunidade. Há um balcão  ao fundo que serve as bebidas e aparentemente outra coisas (entre as quais chamuças para a caridade), e se olharmos de fora é possível vislumbrar ainda uma bola de espelhos deslocada no andar de cima.

Falamos ainda um bocado quando nos encontramos com as raparigas junto à entrada, enquanto o Nicolas voltava para ir buscar a carteira a casa o que, conhecendo-o por poucos dias, faz sentido. É o tipo de personagem alto e escanzelado, cabelo desalinhado e personalidade nervosa e alienada capaz de fazer inveja mesmo a um Woody Allen profundamente neurótico - consta aliás que esta semana conseguiu ficar trancado no quarto sem as chaves.

Todavia não mentirei. Uma das mais agradáveis descobertas da noite foi também perceber que esta era uma alternativa realmente interessante para bebidas e cocktails baratos. Quando esperava na fila começou, inclusivamente, a dar no meio da música o tema do “Livro da Selva” e o homem à minha frente, já na sua meia idade e casaquinhos de lã, começou a batucar o ritmo com o pé. Por alguma razão achei a situação tão deliciosa quanto hilariante, e senti-me bem. Num papel desbotado afixado liam-se algumas da bebidas e sem dúvida acabei por pedir a que me chamou mais a atenção, por todas as razões que podes imaginar: “margarita tatcher is dead"

London - III

Poucas mansões causaram em mim tanto fascínio como esta. Para além dos papéis geniais de Colin Firth e Geoffrey Rush, é um dos pontos fortes do filme. 33 Portland Place, em Marylebone, é a morada. Em tempos foi usada para festas porno, o que levantou polémica entre os aficionados da realeza. Como pode um filme sobre um rei ter sido filmado numa casa com um passado indecoroso! Indeed.

London - II


domingo, 7 de outubro de 2012

London - I


















Perdi a conta das vezes que fui a Londres. A primeira viagem foi nos tempos da primária, em tenra idade e desde então, e por várias razões, nunca deixei de lá ir: nas escapadelas de fim-de-semana, numa visita de estudo ou no primeiro inter-rail. Embora a cidade me pareca fria e desumana na sua grandeza (e, ao contrário de Paris, não me imagino a viver nela), mas consegue surpreender-me e fascinar-me cada vez que por lá passo. É uma cidade que fervilha e que, de facto, cria em mim a impressão de estar no sítio onde as coisas relevantes acontecem. As imagens que postarei nos próximos dias retratam os recantos mais escondidos das multidões e dos flashes dos turistas japoneses. são lugares que marcaram filmes que, por sua vez, me marcaram, ou que foram determinantes na história da cidade. São também lugares que estarão ao nosso alcance dentro de... 13 dias!

Match Point, na imagem (Blackfriars bridge)

sábado, 6 de outubro de 2012

Votos de charme desmedido


Sim, tenho recebido com um misto de inveja e espanto as fotografias que me vão chegando da China, pela mão dos meus camaradas que por lá se divertem, na visita de estudo. Esta foto (© David Felício) faz-me ansiar perdidamente pelo teu bifanas de Nottingham. Qual será melhor?

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Big Hard Sun


When I walk beside herI am the better manWhen I look to leave herI always stagger back again
Once I built an ivory towerSo I could worship from aboveWhen I climb down to be set freeShe took me in again
There’s a bigA big hard sunBeating on the big peopleIn a big hard world
When she comes to greet meShe is mercy at my feetAnd I, I see her inner charmShe just throws it back at me
Once I dug an early graveTo find a better landShe just smiled and laughed at meAnd took her rules back again
There’s a bigA big hard sunBeating on the big peopleIn a big hard world
Oh, there’s a bigA big hard sunBeating on the big peopleIn a big hard world
When I go to cross that riverShe is comfort by my sideWhen I try to understandShe just opens up her hands
There’s a bigA big hard sunBeating on the big peopleIn a big hard world
Once I stood to lose herWhen I saw what I had doneBowed down and threw away the hoursOf her garden and her sun
So I tried to warn herI turned to see her weepForty days and forty nightsAnd it's still coming down on me

There’s a bigA big hard sunBeating on the big peopleIn a big hard world




quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sunny spells


     Saciados de Copenhaga, chegámos a Lund. O dia foi particularmente interessante porque, para além de vermos um dos mais colossais ateliês de arquitectura da escandinávia, vimos um edifício que, na nossa maravilhosa visita à cidade, tínhamos perdido. Refiro-me a Mountain Dwellings: um conjunto de vivendas, que formam um monte com estacionamento partilhado em baixo. Com a Irini e a Callisté, travámos conhecimento de um morador, que nos mostrou parte do interior (sim, fomos os privilegiados). Lá dentro, caiu-nos o queixo: para se ir do estacionamento às casas, não se ia de elevador mas sim de funicular.

     Ainda passámos pela faculdade, para ir buscar umas coisas (e consultar a doce net). Subitamente, um de nós fechou o interruptor da sala. Escuridão quase total, se as janelas não nos iluminassem com um céu resplandecente, cor de fogo. Era um por do sol, em que o sol, ao fim de algumas semanas, se exibia. Durante segundos, cessaram as conversas, e estávamos lado a lado, fitando o raro fenómeno com um deslumbramento genuinamente partilhado. Parecia que o sol nos unia, como se fosse uma fogueira. Sim, nesse momento houve magia. A magia que acontece nos momentos etereamente preciosos. Se estivessemos rodeados de sol, este momento não teria existido.