Senti necessidade de escrever sobre a crítica do trabalho, com o afastamento suficiente para as ideias assentarem e a questão ser finalmente engavetada. Já mostrei este texto a outros círculos, e talvez não te mace de todo.
Vivemos mentalizados para trabalhar, desde que nascemos. Por trabalho entende-se um emprego, um ganha-pão, um sustento ou uma ocupação.
Vivemos mentalizados para trabalhar, desde que nascemos. Por trabalho entende-se um emprego, um ganha-pão, um sustento ou uma ocupação.
Precisamente, ter a sobrevivência
garantida implica uma divisão de tarefas, cuja rigidez tende a aumentar quando
maiores são as populações. Não é então de surpreender que, num mundo
urbanizado, o trabalho seja necessário. O trabalho pode, no entanto,
escravizar, dependendo da forma como é institucionalizado e do seu valor (não
necessariamente monetário). Lembro-me agora das sessões de voluntariado que muitos
estudantes fazem, não pelo proveito pessoal, mas sim pela mais-valia
curricular. Não interessa a satisação, importa é juntar curriculo, e é do nosso
currículo (e do seu sex appeal) que
somos escravos! Tudo se faz por uma "posição privilegiada", mesmo
aceitando trabalhos que se oponham à ética individual.
O trabalho pode ser uma arma
chantagista poderosa, niveladora de comportamentos com base na tirania. Se
fazes o que o patrão (ou o lucro) quer de ti, vais para a rua, ou ficas a
varrer ruas. Só assim se explicam os vendedores de banha de cobra, os campos de
concentração nazis, a apariçao dos segways
ou os processos dos tribunais a serem ganhos pelos advogados mais caros. Precisamente,
não há arma mais poderosa que rotulagem e a discriminação entre as profissões e
o risco de uma "carreira arruinada".
Que haja diferenças na renumeração, é
compreensível. Na lógica actual, (teoricamente) recebe mais quem tem mais
responsabilidade social. Proustitutas,
banqueiros e accionistas da bolsa estão, logicamente, fora deste esquema. No
entanto, não consigo compreender a rotulagem profissional, isto é, como é que
um varredor de ruas (do qual todos dependemos para não sentir repulsa do que
nos rodeia a toda a hora) goza de menos prestígio que um dePutado (porque esse
sabe falar e merece que o tratem por Senhor Engenheiro) ou uma pole dancer
(porque essa dá prazer). Em Portugal, a distinção entre as profissões é quase
omnipresente, como mostrava um outdoor publicitário das Novas Oportunidades
que, há alguns anos atrás, povoava Lisboa inteira: aparecia o Carlos Queiroz,
com o slogan, "se não tivesse estudado, estaria agora a cortar a relva dos
estádios". Pois bem, se o anúncio correspondesse à realidade, talvez
aquela sumidade tivesse feito bem mais pela Selecção Nacional.
O trabalho não é tudo o que nos define; é necessário mas não deve
aprisionar. Faço o que gosto ou o que considero ser relevante para a sociedade,
sem comprometer a expressão dos sentimentos, pensamentos, afectos ou ambições
num plano maior. De resto, se não tivesse receio de diminuir o currículo,
talvez pudesse agir de acordo com aquilo em que acredito.













