pelas janelas avista-se um sol a escorregar pelo horizonte abaixo, recortando com cores de fogo as copas das árvores, nuas do outono avancado. o outono pode, sob uma determinada perspectiva, quase pagã, ser visto como algo de cru e cruel. é o trauma pós-verão, o comeco do frio e os dias cada vez mais curtos. é o ciclo do ano, metáfora da meia-idade e da luta pela sobrevivência que antecede o inverno gélido, onde o frio enruga a pele. na cultura popular aparece bem retratada na história da cigarra e da formiga num recado de moral. querias comida? não cantasses nem pastelasses. fizesses algo de útil porque agora é tarde demais. para mim, o outono, na sua docura, tem uma faceta implacável, do arrependimento não perdoado e um sentimento de culpa de que nos fala essa fábula. é a nostalgia do verão que passou, cujos castelos na areia da praia as ondas insistiram em apagar.
podemos falar no vaivém das ondas da praia que o senhor Palomar vê ao longe, das qutro estacões de Vivaldi ou mesmo no passar dos dias. instintivamente, ou talvez porque outros assim o vêm, o dia é um ciclo, é a vida na sua fractalidade. já o Padre António Vieira tinha essa visão, e mostrou-a num sermão que muito prezo:
"Nós somos o que fazemos. O que não se faz nao existe. Portanto, só existimos quando fazemos. Nos dias que não fazemos, apenas duramos"
esta frase condensa muita coisa, a ponto de eu não perceber o que iria na mente do padre, pelo que não sei o que achar dela. será que o padre referia-se ao trabalho alienado e à necessidade de produzir? é que a frase pode ter essa leitura. porém sinto-me tentado a acreditar na possível boa intencão da frase, como catalizadora de sonhos e ambicões. fazer coisas que eu gosto é meio caminho para, à chegada do fim do dia, eu me sentir feliz e realizado. sem obrigacão do que quer que seja, razão pela qual parece-me falacioso admitir que só existimos quando fazemos alguma coisa.
no conjunto de ciclos que me condicionam, entraste na minha espiral no comeco de um outono. era, naquele longínquo ano 2011, uma época de desalento, em que as folhas caíam das árvores ao mesmo tempo que o vento arrastava nas ruas farrapos de jornais com notícias infelizes. mas, talvez por tua causa, o fatalismo dos tempos passou-me ao lado, sem que tenha estado desatento. contigo ao lado, na praia de algés ou nos jardins de Fronteira, era impossível sentir nostalgias. mas depois, quando chegava à faculdade, aos treinos de jogging e de badminton, às idas ao bairro ou no curso de primeiros socorros, sentia que tinha mais uma razão para fazer o que fazia. davas-me (tanto como hoje me dás), com o teu carácter intelectualmente irrequieto e (ao mesmo tempo) sereno, inspiracão para me fascinar com as coisas mais insignificantes ao olhar desatento.
entraste no meu ciclo. tenho uma escolha a fazer: ser moderno e viver cada momento como se fosse o último para que, quando o ontono chegar, pense que valeu a pena as flores abrirem-se. ou então, viver cada momento como se fosse o último, sem deixar de acreditar na primavera que há-de vir.
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