sábado, 17 de novembro de 2012

do (culto) do quotidiano


Escrevo-te das horas difusas da madrugada, sem a arrogância de querer aqui falar sobre algo mais complexo ou profundo já que os meus pensamentos se tornam enleados com o cansaço acumulado. Essas reflexões virão a seu tempo, sem pretensões espero, mas com maior clareza no discurso. Neste momento quero apenas escrever-te pelo simples acto quase banal de te contar partes do meu dia antes de dar as boas noites - precisamente pelo elemento de simplicidade e de “quotidiano” que nele encontro. Como podes calcular gostei bastante de ler o teu relato, porém achei nele duas cosias deliciosamente singulares:


1. o facto de te referires a encontros fortuitos, capazes de desanimar qualquer alma mais introvertida e transformados em longas conversas com curiosas personagens, como quotidiano é fenomenal e diz mais sobre ti do que sobre o evento em si (festas fabulosas à noite estão incluídas nesta ementa, claro);

2. continuas a ver a rotina quase como um fatalismo poeirento e débil ao qual procuras a todo o custo escapar, contudo, o que eu quero partilhar contigo é algo diferente - um culto distinto do quotidiano.


Já nem falo na beleza alheia do outono com curtos raios de sol, nos pequenos projectos paralelos que florescem na faculdade, ou na serenidade de sentir a integração confortável no sítio onde estamos e com quem estamos. Neste caso refiro-me ao culto do quotidiano ausente entre nós e que por isso se torna mais caro. A verdade é que durante todo este período de Erasmus (e em boa verdade também muitas vezes antes disso), não nos podemos dar ao gestos simples e espontâneos com a mesma facilidade imediata e táctil de Lisboa pois não? Não te posso dar um simples beijo no pescoço quando tenho o impulso de o fazer, ou combinarmos para amanhã uma escapadela às 8h na praia da Algés apenas para ver o sol nascer porque podemos; mesmo a conversa prolongada  de telemovel tem de ser cuidadosamente estudada mediante o saldo em stock existente ou o tempo de skype de acordo com os acordos e agendas colectivos. Movemo-nos num novo território mas com novas regras também - e mesmo assim não deixas de me surpreender e não paramos de encontrar várias subtilezas nesta forma de estar. Tu saunas, eu vou a uns pequenos concertos quando me dá para isso e os nossos amigos vão a espaços hipster sem nós.

Neste paradigma, apenas quero contrapor que há ainda um pequeno quotidiano que todos os dias me deixa saudades.

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