acabo de descer as escadas que dão para o meu quarto. sempre me soube imensamente bem aquele momento em que corto o vento, com a bicicleta a todo o vapor, avenida abaixo, entre os galhos das árvores que rodeiam as escolas antigas, e depois giro na rotunda e ziguezagueio até "aterrar" nas sebes que rodeiam a minha casa. agora sim, o teclado quente e o poder calorífico instalado no quarto faz as minhas mãos palpitar de energia e escrever mais depressa que os pensamentos.
não quero que estas palavras pareçam coladas com cuspo, mas a verdade é que ainda não recuperei da sucessão de acontecimentos recentes. não é de todo normal tentar ir a uma missa protestante e, em vez disso, ver a catedral a abarrotar. perguntei a um fiel se a missa era do Tempo Comum e a resposta foi afirmativa. porém, mal ouvi a resposta, o côro e a orquestra começaram a tocar. qual era a música? o requiem de Mozart. toda aquela atmosfera trouxe-me lágrimas aos olhos, foi inevitável. há algo de inesplicável naquela obra. há uma tristeza que me repele, que eu associo ao fim do filme Amadeus (que aliás recomendo). Segundo o filme, Mozart dedicou os últimos raios de lucidez à composiçãodo requiem, que entrega a Salieri, o rival que lha tinha encomendado e que, logo a seguir, escreve a sua assinatura sobre a do autor. porém, no meio de toda a desolação funerária do requiem, há algo na sua sonoridade que parece reconfortar. algo de místico também [de aceitação do destino], é certo, mas a tristeza daquele requiem também me parece acolhedora. é uma versão vintage do "vamos todos falecer / patinar, bater a bota". imbuido em pensamentos e emoções, fiquei enquanto a obra durou, durante todos os andamentos. a multidão apropriava-se da catedral, enchendo os degraus do púlpito e encostando-se a qualquer recanto que uma coluna oferecesse, e na expressão facial de muita gente lia-se uma serenidade quase pétrea.
depois de tão grande concerto, não houve piquenique, porque a noite prematura e o tempo farrusco pôs logo a ideia de parte. ainda assim encontrei-me com o Ernest, um amigo de Malmö, com quem troquei uns filmes e falei até a estas horas. tivemos de ir para o burguer king, tal foi o desespero de causa.
agora o céu está estrelado. não se vê o sol mas é a primeira vez que as nuvens não cobrem totalmente o céu desde domingo. fantástico!
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