segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

esta não é uma carta de amor



Apeteceu-me escrever-te e peço que não me culpes por isso. Possivelmente só terás tempo para ler depois de aterrares em Lisboa. Se assim for, respiro de alívio. O que se segue é demorado, e teria imenso gosto se lesses com a mesma calma com que escrevi. 

Escrevo-te depois de voltar ao quarto, com a noite avançada. Não sei porque é que só me apetece realmente escrever por estas horas. Não sei se é por estar mais acordado que nunca, ou por ter sido despertado pelas repertório sensorial e emocional do dia. Simplesmente não te sei dizer, certo é que a noite, com a sua escuridão sábia, parece filtrar as ideias, e a luz só ilumina o que queremos. De resto, tal como a caverna platónica, a noite limita o campo visual, mas sem deixar de intrigar. É uma intriga que me reconforta no seu intimismo, quando as distâncias encolhem e as conversas se alongam. Até o tempo parece esticar na sua passividade letal.

Escrevo-te porque, pela primeira vez, sinto que o Erasmus acabou. Eu vi esse fim agora mesmo, quando vi a cidade irreconhecível pela neve murcha, cinzenta e ensopada. Foi finalmente interrompido aquele ciclo linear que antes só vira nos livros de contos infantis, do verde estival à neve infernal, passando pela incrível gama tonal do Outono.

O auge de todo o ciclo foi ver a cidade recém-caiada de branco, ao mesmo tempo que o café Ariman, com o melhor capuccino da cidade, emanava calor dos radiadores ao rubro, enquanto os meus desenhos se acumulavam nas paredes do meu "gabinete" como flocos de neve, e as tertúlias cinematográficas se sucediam a um ritmo de compasso. Mas agora parece que a minha presença na Suécia , por momentos, é apenas física. Vejo a neve desfazer-se como a festa que se acaba. Quase todo o meu pensamento vai para o que farei em Lisboa, ou numa possível ida à Índia, por a partilhar com a companhia sublime do meu pai em viagens. O sonho leva-me já às ruas sinuosas de Delhi, aos ghats do rio Ganges em Varanasi ou às ruínas de igrejas portuguesas nas praias de Goa. Se me considero profundo admirador da cultura escandinava, o que tenho lido e visto sobre a Índia também não me deixa de fascinar, com aquele fervilhar de culturas ancestrais que resistiu sempre a toda e qualquer tentativa de domínio ou colonização (e à beira, quem sabe, de destronar o próprio capitalismo como actual motor da globalização). 

Tenho tido uma sucessão de acontecimentos que me tem puxado à realidade. É uma realidade que tento recusar e da qual me tento alhear por estar à beira do fim (não sei sequer se voltarei alguma vez a Lund, ou com que freqência aqui irei). Certo é que, para quem está a ver de fora, as coisas continuam, apesar de alguma dispersão de gente que já aproveita as férias para viajar para fora, razão pela qual já me despedi da maior parte da turma. Há pouco tive um café memorável no Grand Hotel, numa sala digna de um livro de Agatha Christie (Poirot ou Expresso do Oriente, escolha-se), com tectos dourados e lustros de cortar a respiração. Estive horas à conversa com o Niko, amigo finlandês, que no final parecia convencido a levar a namorada a Lisboa. Depois tive de correr para a sessão de cinema: Dead Man, de Jim Jamursh, com os Tozé. A história fez-me bastante impressão nesta fase, precisamente por retratar um William Blake (personagem que não é o poeta, aKa. Johnny Depp) que vai num comboio para o faroeste, quando o passageiro à sua frente lhe diz que vai para o inferno (ele já vai morto, portanto). Semi-despedi-me daquele impecável grupo que me ajudou a trazer estabilidade nestes quatro meses que agora acabam. Semi-despedi-me, porque prometi uma cerveja amanhã e talvez me juntar para uma discussão do Genesis. 

Amanhã vou ver a discussão do doutoramento da Karen, amiga boliviana que fez uma tese sobre biocombustíveis a partir da biomassa. Também vai haver uma aula aberta de um dos mais carismáticos políticos da Colômbia, mas tenho trabalho da faculdade para acabar, papelada para tratar e uma bicicleta para (tentar) vender.

A cidade está irreconhecível e o vento marítimo está mais quente. Eu já mudei de sítio sem me aperceber, mas não deixo de ver em retrospectiva o nosso ano e algo de namoro não só juntos em mente, mas também no corpo e na pele. Do teu nariz e da tua testa ao alcance do meu lábio, dos teus olhos que fecham ao fechar dos meus ou das tuas curvas que as minhas mãos coreograficamente alcançam. Só quando te tenho ao lado consigo verter lágrimas que os teus cabelos enxugam, é só contigo que me sinto realmente em casa. Casa é onde tu estás, está dito. Mas acima de tudo, tenho-me apercebido da minha mesquinhez em não ver as nossas coisas pequenas. Sinto-me pequeno quando só vejo o vago e o improvável ou quando a minha mente se transforma em cronologia de facebook e só me ocorrem os últimos momentos. 

Estar ao teu lado foi único e singular quando jantaste pato no café Alibi e vimos as pontes a lançarem-se no Danúbio. Mas também foi único no punt do rio Cam, debaixo da bidge of sights. Ou memso em Wollaton, na minha masmorra de Lund com velas, nos cais de madeira de Kastrup sobre o Báltico, ou mesmo no abraço do aeroporto. E, porque não dize-lo, em conversas memoráveis no skype. E tudo isto já no Erasmus. E antes, como foi o Verão? O carro multado durante o melhor chuveiro da minha vida, o osso da costeleta a sair do prato Vista Alegre num jantar romântico, o pôr-do-sol em Cacela, a briga pelo sofá insuflável na piscina da Rua da Moura Lídia, as conversas sobre a RTP2 estendido na rede do jardim a ver o mar na Madeira, as amoras que apanhámos na Gardunha, o amanhecer no cimo dos montes, a pedra lisa para contemplar a paisagem, o terraco com vista para as Donas, a piscina ecológica, o entardecer na barragem, o caiaque verde que nos levou à quinta abandonada, o vôo easyjet que ficou reservado na Praça Mayor mais remota de Espanha, a festa em Cascais, a manhã em Carcavelos a ler em voz alta na praia, o jantar no Moinho Dom Quixote e a noite no Cabo Raso, os concertos no São Carlos, a visita ao meu tio José Hermano, o jantar no Come Prima, a refeição manhosa McDonald's transformada num almoço memorável sobre os tubos da fábrica de electricidade de Belém, os serões no terraço do LxFactory, a janela que nos trancou lá fora, os trabalhos de faculdade que se acabam no último andar de uma fábrica, a posição Monsanto, o momento casa de banho LxFactory, a respectiva cantina, com o delicioso chouriço, as saídas no bairro e no adamastor, a escalada do portão do Alive, a praia de Algés (claro!), o militar 750, o café de gengibre no cantil quente, o moinho abandonado de Monsanto, a fuga dos jardins de Fronteira, a expusão do Parque das Necessidades, o açaí da Estrela, o Decadente I, o Decadente II, o Decadente III, a pizza de Algés, as tostas de queijo atiadas de Benfica, o Otto&Mezzo, os inacabados 500 dias de Summer, o Vodka sueco que o teu pai gentilmente me ofereceu, a evacuação da tua casa por taxi por questiúnculas de trabalhos de grupo, o descampado em Miraflores, as bruscettas no Capricciosa de Cascais, o Pois, a pastelaria Versailles fechada, o falecido Arte e Manha, as raquetadas no Marquês de Pombal, o pôr-do-sol no Noobai, a "cantina" perto da tua faculdade, as espetadas mal grelhadas na costa alentejana, as bruscettas de anchovas, o teu CD do David Guetta, o IndieLisboa, o concerto dos 3 pianos (irrepetível, infelizmente), o nascer do sol em Algés, os croissants Erik Kaiser que um dia me trouxeste, a pedra manuelina, a multa do autocarro, o lambrusco na margem sul, a mesa do indiano-italiano voltada para o Deus Televisão, a tasca de Benfica, os nervos das primeiras vezes, o jogging na marginal, o kebab do cais do sobré, a pizza no telhado de alfama, o medo de seres assaltada no Martim Moniz, o terraço do São Jorge, o brunch no Orpheu ou no Café da Graça, os gelados à borla no largo Camões, os momentos ousados nas traseiras do Príncipe Real, os soluços confessionais na rua da Rosa, andar pendurado no 28, a feira da Ladra, o último mergulho do ano na praia da Parede, o Filho da Mãe, as duas operações stop sem me mandarem parar, as Serviçais no El Corte Inglês, o pôr-do-sol sob a aresta do Padrão dos Descobrimentos, as despedidas nas plataformas do metro, os jardins da Gulbenkian, o Torel e o seu elevador, a Casa da Galiza, o Experimenta Design, a tentativa de entrar no café Tati, o bolo de bolacha maria na Baixa, o cachorro quente no Terreiro do Paço, o CCB ao fim da tarde, a minha cama e a tua cama,...

Enfim, tive de ser privado pela distância para me aperceber, de forma mais intensa, o que significas para mim e que aquilo que partilhamos é enorme. Tão grande que nem sei como cabe na minha vida (muito menos num ano e algo).

Gostava de te escrever um balanço do Erasmus. Depois de aterrar penso nisso. Boa noite.

(na imagem, Bibi Anderson e Victor Sjöström em Smultronstället, de Ingmar Bergman, ambos fazendo uma pausa na viagem de carro pela Suécia. um velho professor foi a Lund receber uma homenagem e a sua parecença com o meu falecido avô é notável)..


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

do dia




porque a a manhosa da rita mostrou-me essa música há noites atrás e já estou apaixonada por ela e querer partilha-la. comprei também o cd de st. vincent e david byrne e a lista dos blues do meu computador tem caído bem com o chá e o serão da noite. assim corre a música destes dias em conjunto com a tua.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

these times.


O tempo escoa rapidamente, mesmo que a serenidade de te escrever do interior dos lençóis da cama em alta noite dê a falsa ilusão de alguma estaticidade. Pelo menos por enquanto e pelo menos até me lembrar de novo das cinco horas que terei de dormir em ordem a acordar, com tempo, para apanhar o autocarro da manhã para Birmingham. Provavelmente tu sentirás isso de forma ainda mais flagrante, não só pelo ritmo apressado e extenuante dos últimos dias de trabalho, como também pelo modo como sei que sorverás toda a beleza de Lund em arredores nestes últimos dias.

Quanto a mim posso começar logo por te dizer que estes últimos dois dias têm-me sabido muito bem mesmo, não só pelo reencontro genuíno com a Rita e perante mim mesma (pergunto-me se isto fará  sequer sentido, espero que sim), mas também porque sinto que consegui um estranho equilíbrio certo entre a voltar vaguear por Nottingham e a calma caseira. Mesmo a pequena escapadela de ontem ao Rescue Rooms com todas as suas personagens invulgares e - sejamos honestos - desajeitadas, deu ainda espaço para encontrar e meter a conversa em dia, rir e desanuviar. Fosse no ambiente confessional e sóbrio do exterior do bar, ouvindo a música indie abafada que vinha lá de dentro, a sós apenas com a Rita, as nossas bebidas e o cigarro ainda acesso dela; fosse no interior quente depois de encontrar brevemente a Diana e a Sonia por acaso (com os primos de visita) e tentar falar um misto de catalão e português, ao mesmo tempo que nos tentávamos ouvir sobre a música. Até os rapazes que vieram falar connosco, depois de ficar muito claro que não queríamos nada e da conversa resvalar para o cinema, foram boa conversa (é curioso, observava-os na serenidade divertida de sou uma batata casada enquanto sorvia o meu copo lentamente como que da distância de um narrador a quem toda a cena não diz inteiramente respeito).

Hoje a “manhã" começou na tarde do meio dia, e constatámos que o frio cortante da noite anterior deixara claramente as suas marcas enquanto fina película de gelo sobre os vidros e superfícies metalizadas dos carros e passeios. As burocracias pendentes que tinha de resolver na faculdade e a hora avançada que prossegue com a mesma rapidez que o sol pelo horizonte, fizeram-nos adiar a sessão fotográfica a Wollaton Hall em função de um passeio pela cidade e pelo mercado de Natal. Houve repes de chocolate e um frio doloroso na ponta dos dedos e da cara, e vinho na catedral Pitcher&Piano com o seu charme profano (embora só já procurássemos algum refúgio mais tarde para descongelar).

Voltámos e, cansados e com frio, decidimos ficar em casa e saltar o swing com swag. Para outra altura talvez, mas não me arrependo deste dia. Acho que tanto a Rita como o Henrique se deram bem, pelo que o serão correu até tarde só de conversa, tostas e muito chá de meia noite. Espero-te muita sorte para esta apresentação e principalmente que aproveites o tempo em mãos - por meu lado aguardo também por ti.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

da bonança (ou quase)

o dia começou cedo, ainda era escuro. na bruma matinal, pouco se distinguia, tal era a camada de neve. havia carros camuflados e espessas mantas que saíam dos telhados, ficando suspensas e ameaçando cair a qualquer momento. sentado no equilíbrio precário da bicicleta, a espessura da neve impede uma trajectória elegantemente rectilínea. os travões acumulam neve e as mudanças foram derrotadas pelo gelo. subir a encosta com a mudança da descida deixa-me derrotado, porém, a beleza dos galhos das árvores e do céu onde, excepcionalmente e tímidamente espreita o sol recompensam-me em cada segundo.

o resto tempo derreteu-se em apresentacões, sem que eu apresentasse (fa-lo-ei amanhã às 8 e meia) com críticas mansas, independentemente da qualidade dos trabalhos. houve um que foi amplamente elogiado, ironicamente aquele que antes fazia questão de ver. "no one demands anything from you", dizia-me o Olle, sueco de gema, temendo que o país seja condenado ao triunfo da mediocridade. talvez tenha razão. certo é que o café, o chá e o almoço, oferecidos pela faculdade ao longo do dia, faziam-nos rejubilar. o almoço foi animado, discutimos o nosso futuro e as possíveis visitas, um "tenho de ir a Lisboa", que sabe sempre bem ouvir. o Payam fez a apresentação mais animada de todas, "of course politicians will say NO to my proposals, 'cause they belong to the right-wing so they hate bikes", entre outras pérolas.

agora vem o lazer. tenho a maqueta a olhar para mim mas não tenho grande vontade de lhe tocar. o presépio pós-moderno tem de ter o estábulo mal enquadrado. ou então ele pode nem aparecer. talvez apareçam dois reis magos. com sorte.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

why I love scandinavia II


Quando mais conheco histórias setentrionais, mais inspirado me sinto. Apresento-te Jón Gnarr, um taxista de Reiqjavique que, tal como o Miguel Relvas, nunca foi à faculdade. Na infância foram-lhe diagnosticados problemas de atrasos mentais, que o obrigaram a ficar internado no hospital. Mais tarde, nos tempos livres tocava numa banda de Punk que seguiu a Björk numa das suas tournées, com quem ainda mantém uma grande amizade. Em 2009, aí pelos tempos da crise dos bancos, juntou uns amigos e, em tom de gozo, formou o Melhor Partido. Candidatou-se à câmara - este é o seu vídeo da candidatura - e fez uma campanha eleitoral animada. Disse abertamente que o seu partido seria tão corrupto como os outros e que não cumpriria algumas promessas eleitorais: um urso polar para o Jardim Zoológico, toalhas à borla nas piscinas e um parlamento sem drogas em 2020, entre outras prioridades de agenda. Agora é o Mayor da vila, facebookeiro desmedido que alinha nas paradas gays. "Homophobia is not a phobia. They are not scared. They are just a bunch of assholes", escreveu ele.

quarto entre parêntesis




Faltam-me as palavras certas para pôr aqui (e a bem dizer o tempo), no entanto acomodei-me tanto a este pequeno espaço e ao seu intimismo nos últimos tempos, que este se tornou quase como quarto. O último lugar de refúgio, a casa dentro da casa, o espaço soberano dos nossos pensamentos. Tento por isso apenas ocupar e ficar aqui recatadamente durante uns minutos, para fugir ao ruído da confusão e caos lá fora. A promessa de estar de novo mais livre e ainda ter tempo para explorar este lugar e deambular por londres antes de voltar também me anima mais. Haja por isso nas pequenas pausas algum estilo e serenidade.