terça-feira, 16 de outubro de 2012

são os mesmos 21?




Sempre apreciei as considerações que acompanham os aniversários. Com pensamentos mais ou menos festeiros, é pretexto para se dizer, "agora é que é, antes dos <introduzir idade actual- 1> era uma criança!". O sentimento de importância recém adquirida e apavonada apodera-se sempre do mais cândido dos aniversariantes jovens (e afins).

Digamos que os <> da programação aplicada do técnico estão cá por motivos pouco ou nada geek, apenas traduzem uma função que é quase constante até a uma certa idade. Vejo, com algum alívio, que talvez passes pelo mesmo que eu, não sei. Vou-te explicar: também não sinto nenhuma diferença pós-aniversário, tirando os mimos recentes, que rejuvenescem, e uma tentativa auto-imposta da crença na superação. Precisamente pelo rejuvenescimento, digo para mim próprio, "calma, sou um ano mais velho, preciso de me sentir como tal!" Sim, é claro que antes do inter-rail era um puto. Basta olhar para as minhas (e as nossas) fotos. Ou para fotografias mais antigas. Eu noctívago do secundário. Eu vestido de escuteiro. Eu com os primos. Eu abraçado à mãe. Mas nem é preciso fazer tanta retrospectiva, porque, na verdade, tendo a bipolarizar o passado e o presente. Na tentativa rebelde e instintiva de ganhar maturidade, tendo a descomprometer-me com o Tomás ingénuo que cá andava. Não fui eu que me deixei enganar pelo senhorio sueco no quarto bolorento. Quer dizer, sou, mas já não sou bem o mesmo. Também não fui eu que usei um gorro do super-mário em festas. Agora vivo no estrangeiro, sem depender da roupa e da cama lavada, e quase me esqueço da sanguessuguisse monetária, tal é a minha ousadia pós-adolescente! Uh, watch out, we got a (grown) beard over here!

Gostei imenso da tua reflexão pós-aniversário. Foi saudável. Tens uma maneira talvez um pouco escandinava, bahaus, racional e asséptica de expor as tuas emoções, que se estranha mas depois entranha-se. Uma leitura desatenta quase que faz entender que desenhas geometricamente as pessoas à tua volta numa oval que queres que seja perfeita e equilibrada. Umas são mais próximas do que outras. Tomás, este é o teu lugar, não te mexas, fica alinhado na oval. Assim tentas gerir a tua "casa". Falas dos twenty something, como se a não erudição fosse um handicap. Será? "devias ouvir música mais erudita" é dos piores comentários que se podem fazer e são motivo de arrependimento profundo (e de um pedido sentido de desculpa). É que tal afirmação pressupõe o total desvirtuamento do propósito da música. A música existe para ser sentida e ecoar emoção e afecto (ou trash metal e massacration). Em puto (e não tão puto assim), fui envergonhado várias vezes com um "não acredito que gostas disto". Fará sentido? Anos volvidos acho que não. Repara como novamente me estou a apavonar na condição de pretenso adulto.

Vou apenas tentar discernir que os twenty something significam para mim, e espero que não me leves a mal. Dizes que a nossa geração vai ter trabalho, casamento e filhos? Não tenho tanta certeza. O emprego (estável e onde se quer) é uma miragem, os filhos rareiam (e, sendo raros, são preciosos entre os presentes, pelo que são cada vez mais mimados e apaparocados). O casamento, então, será a coisa mais rara (e cada vez menos apreciada entre os conterrâneos). Cada vez mais triunfa o culto da paixão, do descartável e descomplicado e do prazer do momento, em relação à fé no verdadeiro amor. Como raramente se acredita no amor, vivido, sentido, acarinhado e trabalhado, também é raro acreditar-se no casamento.

Twenty something, para mim, é um cheque em branco à autonomia. Mas é, acima de tudo, a fase das grandes escolhas. Pode, por opção, ser a altura dos sonhos bem intencionados e da busca por um mundo (exterior e interior) fractalmente melhor. Digo fractalmente, porque os grandes projectos não se medem no tamanho nem na influência. Na solidão, no desemprego, na miséria ou no fausto, há força para remar contra a maré ou deixar-se levar.

Twenty something, é certo, mas posso escolher, bem à Benjamin Button, ser ingenuamente infantil e velho do Restelo cauteloso ao mesmo tempo. Posso ser várias idades ao mesmo tempo, visto que nem serei adolescente nem adulto. Posso ser intemporal naquilo que sinto, ou simplesmente infantil e pateta, se contar com a Ajuda do Público. Espero que assim seja a paixão que sinto por ti.

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