sábado, 27 de outubro de 2012

dissertações noctívagas

Escrevo-te do meu quarto de paredes nuas, antes de me deitar. Vais-me desculpar esta intromissão fora de horas (ainda que tenha o desconto do fuso-horário e da palermice de quem quer arranjar artimanhas para adiar a subida à cama).

Tenho a dizer-te, pois, que hoje tive um dia pleno, onde nada de extraordinário aconteceu. Uma medianiazinha que só tinha razões para ser insuportável, mas que tem em mim um poder regenerador. Isto apesar de ainda não ter dormido tempo suficiente desde a viagem e das entregas importantes que terei para a semana.

Tenho contado com uma ajuda preciosa: um céu azul profundo, coisa nunca antes vista por mim nestas paragens. Sempre gostei destes dias, secos e frios. O azul reflectido nas paredes e nos vidros e o ar leve e etéreo trazem-me memórias de infância e estimulam o imaginário. Pois bem, hoje ao amanhecer contei com um brinde especial: gelo omnipresente. Subi as escadas, montei a bicicleta e respirei fundo, olhando para as longas sombras que o sol dourado desenhava no asfalto imenso da minha rua. Os vidros dos carros tinham um brilho baço, como se tivessem 300 anos. As rodas da bicicleta faziam crepitar o gelo à sua passagem e as folhas de outono reluziam através dos cristais.

De manhã fiz uma das coisas que mais me abstrai: pintar aguarelas de cenários imaginados. Foi o grupo que me pediu, assegurando que, em contrapartida, fariam a maqueta e todas as outras tarefas. Thank god! Depois combinei com a Irini almoçar mais tarde, para podermos cozinhar sem multidões à volta. Assim foi. À hora marcada (umas tardias duas da tarde,num costume bem latino), eu trouxe uns pastéis de espinafres com queijo gregos congelados que comprara no lidl, que pus no forno. Ela presenteou-me com uma iguaria grega: ovos mexidos com tomate ralado, queijo feta e pimenta. "it is called Strapatsada, which means... I dunno. Ugly face! It isn't that appealing but the taste is óssome!" Enquanto cozinhávamos tentei tocar Schumann na parte do piano que está menos desafinada. Depois da conversa do almoço, prometi fazer para a faculdade a única especialidade portuguesa que me ocorre fazer em terras escandinavas: bife com molho de café com batatas redondas. Tentarei fazer a receita da portugália, para a semana.

A faculdade foi gradualmente ficando vazia. Era noite cerrada e a maioria ainda trabalhava afincadamente. Tomei a indulgência de sair sozinho. As estrelas brilhavam, e não resisti em dar uma volta pelo centro. Não imaginas o quão bem me soube. Sem vento e apenas com algum frio no rosto, proliferavam os cafés e os bares repletos de rostos alegres q.b, os bares temáticos (há sempre algum por descobrir, lembro-me de ti quando vejo algum com collages nas paredes, sofás e recantos docemente iluminados. Como a noite estava calma, voltei a olhar para os interiores das casas. Há sempre uma janela que ainda não se viu, uma estante de livros ou um lustro do tecto novo. Fiquei preocupado porque não consegui levantar dinheiro, apesar de ter tentato 2 bancos. "Refused by your bank", porém, uma consulta da conta pela net diz que está tudo bem... Voltou-me à mente o fantasma da bancarrota, pelo que tentarei abrir uma conta por cá na segunda ou assim que for possível.

Cheguei a casa sob o crepitar ensurdecedor (e reconfortante) dos foguetes distantes. Lá em baixo, os vizinhos vietnamitas comiam e bebiam alegremente. Ofereceram-me vinho tinto francês, com o qual brindámos no registo trilingue, "skol; à nossa; iaô". Apesar de comunicarmos pouco e mal no que diz respeito às palavras e urros animalescos, há entre nós uma certa empatia. De que eles são bons vizinhos, não tenho dúvidas. Deitam as mãos à cabeça quando me vêm a fazer o meu arroz, mas o que se há-de fazer?


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