Parece-me estranho pegar agora nos relatos de ponta solta dos dias que por aqui passo principalmente quando estão espalhados por semanas, mas a memória é imperfeita e assim é a minha escrita. A verdade é que este é um diário pelo intimismo com que te escrevo, como se permanecesses a extensão dos meus pensamentos, porém ao mesmo tempo é tudo menos um diário no sentido literal que necessita da persistente devoção e actualização do dia a dia. Não tenho essa pretensão; os meus relatos são histórias diferente, impressões vagas ou simplesmente considerações mas espero que no fim contem todos a mesma história coerente. Permite-me assim recuar uns dias.
Saímos os três nessa noite fria de sábado. Eu, o Henrique e a namorada dele que viera de Londres para passar o fim de semana alargado connosco, o que até sabe bastante bem confesso. É curioso como a ordem das coisas flui naturalmente apesar de o espaço da casa não parecer grande à partida. Geralmente metemos alguma música, abrimos uma janela, o Henrique põem-se a fazer o jantar e eu fico com a loiça - e apenas recentemente comecei a questionar essa ordem natural, não pelo que é (isto é, a minha prática obviamente deficitária na cozinha) mas como uma questão de orgulho do género. A verdade é praticamente todo o homem que conheço cozinha melhor do que eu, sendo tu o verdadeiro culpado pelo estereótipo e alto padrão que criei. Porém, a bem dizer, qualquer ser humano o consegue.
Espera, deixa-me assim parafrasear de novo: todo o Homem cozinha melhor do que eu.
Ainda assim fomos sair sob convite inesperado: aparentemente a comunidade veggan que existe praticamente à frente de nossa casa abre portas às sextas e domingos sob forma de bar barato e convívio aberto a quem se queira juntar de boa vontade. Porém em minha defesa devo explicar como algo tão próximo nos escapou de forma tão óbvia. É que os vestígios do sonho industrial britânico, com as suas casas de tijoleira de subúrbio simetrica e ortogonalmente alinhadas até perder de vista, é particularmente evidente no meu bairro (senão mesmo paradigmático), pelo que se torna difícil fazer qualquer distinção evidente. A proposta foi-nos lançada pelo rapaz checo de belas artes, o Nicolas, e pelas colegas de casa dele que apenas conhecia de correspondência (na verdade, quase estivemos a partilhar casa nesse desespero inicial que foi a busca por alojamento). Assim a proposta era apenas um copo de qualquer coisa do outro lado da rua.
Está uma noite extraordinariamente limpa, nítida até, mas o frio é de cortar à faca o estreito espaço entre os agasalhos. Ao gelo da noite contrasta no entanto com o calor do interior e do homem (provavelmente gerente, coordenador ou apenas dono da casa) pelo modo como nos recebe, explica o conceito do espaço, e fala pelos cotovelos. O ambiente é pouco ortodoxo em alguns aspectos porém há nele algo de familiar, como se todos já se conhecessem de algum modo, o que se revela uma boa descoberta. É literalmente o espaço de uma casa convertido quase em sala aberta para esta comunidade. Há um balcão ao fundo que serve as bebidas e aparentemente outra coisas (entre as quais chamuças para a caridade), e se olharmos de fora é possível vislumbrar ainda uma bola de espelhos deslocada no andar de cima.
Falamos ainda um bocado quando nos encontramos com as raparigas junto à entrada, enquanto o Nicolas voltava para ir buscar a carteira a casa o que, conhecendo-o por poucos dias, faz sentido. É o tipo de personagem alto e escanzelado, cabelo desalinhado e personalidade nervosa e alienada capaz de fazer inveja mesmo a um Woody Allen profundamente neurótico - consta aliás que esta semana conseguiu ficar trancado no quarto sem as chaves.
Todavia não mentirei. Uma das mais agradáveis descobertas da noite foi também perceber que esta era uma alternativa realmente interessante para bebidas e cocktails baratos. Quando esperava na fila começou, inclusivamente, a dar no meio da música o tema do “Livro da Selva” e o homem à minha frente, já na sua meia idade e casaquinhos de lã, começou a batucar o ritmo com o pé. Por alguma razão achei a situação tão deliciosa quanto hilariante, e senti-me bem. Num papel desbotado afixado liam-se algumas da bebidas e sem dúvida acabei por pedir a que me chamou mais a atenção, por todas as razões que podes imaginar: “margarita tatcher is dead"
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