domingo, 14 de outubro de 2012

a noite no cais

a noite estava fria e o vento soprava da água. a escuridão, essa película quase omnipresente, tapava-nos a vista, se não fosse a lanterna que o barqueiro nos apontava a face. a luz era branca, fria e ofuscava. no entanto, das barbas brancas esboçou-se um sorriso:
- are you going to the boat trip? com'inside!
assim foi. o barco agitava suavemente e chocava repetidamente contra o muro de pedra. tomámos o nosso lugar, bem junto à amura, de onde se via a cidade em todo o seu esplendor. quando o motor começou a tremer e a arrastar o barco para longe do cais, a irini apontou para o relógio do telemóvel, fascinada: era o relógio que mudava das 22:59 para 23:00. mas eu tentava abstrair-me da precisão matemática dos segundos, tentando alongá-los no sentir e no olhar.
a cidade desfilava nas duas margens do porto, enquanto o barco cortava a água e o vento. o frio era implacável e entrincheirava-se em qualquer frincha do casaco, anestesiando-me os dedos das mãos. mas, ainda assim, tentava abstrair-me de assuntos interiores, porque algo de belo acontecia naquele momento. era uma sucessão de armazéns de madeira e tijolo, aninhados uns contra os outros, acompanhando a água. as janelas faziam adivinhar o interior, convertido em casas, iluminadas no interior por luzes quentes e suaves. viam-se as traves de madeira e os ferrolhos, que já não guardavam contrabando, mas sim uma cozinha Ikea ou uma cadeira Alvar Aalto. as pessoas acotovelavam-se em filas civilizadas para entrar nos museus que, naquela Kulturnatten (noite da cultura) estavam abertos até tarde. aqui e ali iam aparecendo torres de igrejas, de silhueta caprichosamente trabalhada, árvores e jardins amarelados pelo Outono, a ópera, o teatro, a biblioteca nacional e os palácios reais. a cidade exibe-se, e braço de mar do porto é a passarelle do seu orgulho. é quase que um museu com quadros expostos nas suas paredes. se antes menosprezava o passeio de barco, fiquei com outra percepção de copenhaga. 
o frio espermia e oprimia. era um combate inglório, um bend and break adiado. quando voltámos ao cais não fui o único a suspirar de alívio. fomos a correr para o Danish Architecture Centre para nos aquecermos na livraria, onde não muito tempo antes tinha acontecido um concerto de free jazz. Não nor iríamos alongar certamente, pois tínhamos uma festa à nossa espera na sala de concertos underground mais famosa de Copenhaga: Vega. a catarse da volta pelo porto, e a memória da cidade à noite, porém, já nos acompanhavam.

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