sexta-feira, 26 de outubro de 2012
De Passagem
Curiosos esses momentos de passagem, como os que descreveste no teu texto anterior e digo-o porque tive um momento de igual simetria quando me despedi de ti da última vez que te visitei, enquanto esperava no aeroporto de Copenhaga para apanhar o meu voo.
Lembro-me com uma nitidez notável desse momento embora tenhas descrito tal experiência com uma eloquência que eu, até então, não conseguira pôr pelas palavras certas. Julgo que sempre senti uma espécie de fascínio alheio por contemplar pessoas em pontos que são tão somente de efémeros, de passagem: seja no exercício de olhar para a rua distraidamente, sorvendo um café tosco no metro em hora de ponta ou enquanto se espera por um voo num aeroporto com as dimensões do de Copenhaga. Nessa altura, entre a saída de Lund onde ainda me perdi um pouco nas ruas até chegar à estação e o comboio até à estranho reino da Dinamarca, tive medo que o tempo não chegasse mas dei por mim com uma margem entre a minha chegada e o momento de embarque pelo que me contentei em procurar o sítio para comer mais perto e lá me instalar confortavelmente. Não sei se é possível usar o termo “estar confortavelmente instalado” num Burger King de aeroporto, principalmente quando o almoço é forçado às 11h30 da manhã apenas para escapar à arte de pagar refeições em qualquer voo da easyjet, mas pelo menos pareceu-me a única solução óbvia naquele momento.
Comida à parte, o sítio não era mau de todo. Em vez de estar toscamente enroscado num canto a cheirar a fritos, tinha uns bancos solitários virados para um estrado de vidro com vista directamente para as entradas constantes de pessoas no check in num piso acima, o que ajuda este peculiar modo de contemplação. Retirei o pequeno diário gráfico que decidira usar para essa viagem não sem alguma reminiscência. Fora o mesmo caderno que usara para relatar o nosso interrail há praticamente um ano atrás (na verdade, um ano e um bocadinho na altura) e, tirando um pequeno considerando que fizera antes de partir de Lisboa, essas eram as únicas memórias que este continha. Na verdade gosto de cultivar a psicologia de um diário gráfico, já que são um pequeno prazer meu. Tenho por exemplo três zap books amarelos exactamente iguais e estandardizados no momento em que os comprei, e todos eles contêm um tom diferente (nem que seja pelo tom da capa que há muito deixou de ser aquele amarelo imaculado): uns são quase esquizofrénicos na amalgama de apontamentos misturados com desenho rápido, outros estudadamente cuidados, outros mais caricaturais. Mas este caderninho contava uma história ainda mais intimista e querida - a sua psicologia sabia-a de cor.
Sentei-me a tentar desenhar as pessoas em puro movimento, a tentar agarrar e sorver um instante que se perde enquanto tomamos a posição de voyeur camuflado, e ao mesmo tempo ia digerindo na minha cabeça o tempo que acabáramos de passar juntos. Foi tão bom, quase como se nunca nos tivéssemos separado mas estas contemplação era em si um apaziguamento da despedida. O futuro pareceu-me nítido e não encontro outra forma de o dizer, mas foi isto que eu senti. Brinquei com a ideia de, de facto, nos mudarmos eventualmente para Copenhaga e lá trabalharmos juntos, quem sabe - ou outra coisa qualquer, o que fosse.
Mas nesse momento de passagem a única coisa que senti foi uma súbita e clara segurança. E tudo o resto vem por acrescento.
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