Acordei a meio na noite sem muito sono, surpreendida por constatar que eram 3h30 da manhã. Não sabia bem o que fazer com aquele tempo embora o “1984” que me absorvera não poucas horas antes permanecesse como um convite permanente em cima da cabeceira. Levantei-me, a voz ainda áspera e enfraquecida - pelo menos algo é certo na Grã Bretanha e isso é a desinibição com que um chá quente em qualquer altura parece resolver tudo, principalmente se for para apaziguar a garganta ou o estômago meio da noite. Procissão meio dormente à cozinha com a chaleira a aquecer, casca de limão, leite, mel e uns suspeitos biscoitos de gengibre a rematar o pequeno conforto caseiro. Estava satisfeita com aquele pequeno luxo e, antes de voltar para o quarto, espreito furtivamente entre os estores para a rua.
Estava a nevar.
Mas era uma neve quase indelével, flocos tão finos que pareciam de uma leveza insustentável, comandados aos caprichos do vento. Decerto que de manhã não permaneceriam para contar a história, porém era belo e único na mesma, talvez até por causa desse fragilidade momentânea. Nevar é algo que nunca acontece em Lisboa (vi-o apenas uma vez e foi na Bélgica), daí o meu provincianismo ainda perante o fenómeno.. ou talvez fosse apenas pelo momento furtivo em que acordei e reparei nisso mas de pouco interessa o contexto. Mudei-me para a minha janela com vista para o telhado e abri-a: do ponto onde estava ainda sentia o quarto quente (tinha um aquecedor mesmo contra as minhas pernas) mas sentia a sensação agradável de frio contra a cara enquanto sorvia o meu chá em pequenos golos. Por instantes a neve intensificou-se e começou a acumular-se imperceptivelmente no telhado; um floco ficou preso no meu cabelo mais do que uma vez.

certamente, minha cara, porém não é difícil um floco de neve ficar preso ao teu cabelo várias vezes consecutivas, até derreter, evaporar e pulverizar-se! (a imagem parece-me merecedora de alguma poesia though)
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