segunda-feira, 28 de julho de 2014

limericks.
























dos versos no book of nonsense de edward lear e das ilustrações de gabriella barouch (embora as originais sejam também fenomenais). há que fazer a nossa versão recontada.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

das manhãs.


As manhãs por aqui começam sempre da forma mais suave. Geralmente acordo um pouco mais cedo e movimento-me cuidadosamente na penumbra do quarto, os pés descalços - como parece ser hábito durante todo o verão - tacteando indolentemente o chão já marcado pelo pó e a areia que terceiros trazem da praia. É capricho meu, julgo. Pés desnudos no soalho são daqueles hábitos que apenas o verão parece trazer como culto, tal como vestidos mais leves, ou menos fome em dias de pleno calor. É pois neste culto inconsistente que me esgueiro sorrateiramente para fora. Os horários que correm na minha casa, principalmente nesta altura do ano, são certamente diferentes dos a que estás familiarizado - tudo dorme, geralmente até onde a manhã consegue ser generosa. Vejo os pés da minha irmã de fora da cama no seu andar de cima, a respiração calma elevando a pele em movimentos regulares. Saio em silêncio, ainda feita sombra. O terraço recebe-me sempre com a sua luz franca e geralmente pautado pelo silêncio das primeiras horas do dia.

Geralmente.

Ao som ritmado da água em plano de fundo e ao ocasional chilrear que me costuma fazer companhia, existe um som distante mas profundo de alguém a cortar a relva que prevalece sobre tudo o resto. Um avião passa, mais desse rugir que ecoa pela minha casa qual ode triunfal. Amaldiçoou-o secretamente por conspurcar o fraco retrato romântico que te procurava ilustrar, ainda que este som omnipresente já me tenha acordado bastantes vezes, bastante perto, por bastante tempo. O som pára. Apenas consigo ouvir algumas vozes dispersas e distantes, ainda fora do meu raio de visão mas rapidamente tudo emudece de novo deixando-me submergir na calma que tanto prezo quando me encontro aqui. O meu problema é que te escrevo isto tardiamente, quando os sons à minha volta já me lembram um quotidiano estranho e distante e quando aquela luz, cheia de pequenas transparências e nuances de um sol ainda tímido, já desapareceu. A preguiça por estes lados, no entanto serve-me bem. O cenário à minha frente pode não ser de todo de uma beleza exuberante, porém, só o facto da água correr com um ligeiro cheiro a relva que entra directamente neste alpendre aberto dá-me vontade de me abrigar aqui. Só um bocadinho e só quando o mundo parece estar estar vazio ou a acontecer noutro lado. Porventura poderias inclusivamente incluir-me num conto suburbano, onde tudo acontece deslocado na distância de uma fortaleza moderna, qual pequeno parque temático privado. Até tenho tenho as palmeiras para esse efeito e para acreditar que estou de férias. Eu, simulacro.

Seja como for, é sempre neste alpendre que gosto de ouvir a tua voz, de relembrar que há vida para além da minha pequena muralha inexpugnável e que há paixão para além do quotidiano. Que o verão ainda é nosso e cheio de promessas, que esta brisa morna e este restolho tímido das folhas têm um poder sobre mim que é o dos pensamentos luminosos, mesmo nos períodos mais exaustivos. Confesso que faltas tu. Ou aqui ou nos montes carregados de cerejas carnudas, inchadas das Donas. Tu com outro alpendre, outra varanda mais genuína que nunca poderia passar por parque temático, provavelmente na esperança de rematar o final do dia nas águas paradas da barragem ou de visita a qualquer aldeia remota. Ou no Alentejo tão vasto e pródigo de coisas para ver, ou na nossa Lisboa iluminada pelos miradouros e com tanta coisa a acontecer. Ou na tua cama ou na minha.

Do regresso das palavras e do amor à distância, aproveita tu o teu refúgio.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

obrigado por me chamares de volta

Suavemente, as luzes do carro deslizavam sobre o restolho de verão. A erva pisada ia libertando um odor puro e fresco, onde se imiscuem as mais profundas memórias de infância e o desejo ardente de que este ciclo estival se repita, ano após ano.

Apaguei as luzes do carro, e apenas via ao longe a luz ténue de um carro de namorados, que bem aproveitavam a noite morna. Ao lado olhei para a avó, que libertava um olhar vivo que não via há bastante tempo.

- Gostas deste sítio? - perguntei eu.
- É fantástico! Que vista!

Atrás da erva ondulante, mostravam-se os montes dos subúrbios, onde as luzes denunciavam aquelas toponímias que habitamos e que, ao mesmo tempo, fingimos não conhecer.

- É uma bela vista! - deleitou-se a avó.
- O que é que tudo isto te faz lembrar? - perguntei eu.
- Não sei. É uma cidade. - comentou, laconicamente.
- Pois a mim - anunciei, trinfalmente - parece um ser vivo. Os carros movem-se como o sangue nas veias e as luzes das casas são como as células; é como se cada uma iluminasse uma família diferente.
- Bem visto - rematou a avó, rodando a cabeça para melhor contemplar todo aquele presépio suburbano.


Saquei um livro, aquele livro que trouxe da biblioteca, e principiei a ler. Soluçando, tentei traduzir em voz alta para a avó ouvir. O texto referia-se à pintura do Palácio Público de Siena, Alegoria do Bom Governo, de Ambrogio Lorenzetti. Trata-se de um fresco que representa uma cidade coesa, onde os vários edifícios têm a mesma traça, os espaços públicos são acessíveis a todos e, ao redor da cidade, distinguem-se as searas que a alimentam.

Olhando ao meu redor, via uma cidade desesperançada, quase antagónica à Alegoria do Bom Governo, onde, apesar de tudo, os carros levam as pessoas saciadas do Dolce Vita Tejo. Mas os montes, iluminados parcialmente, anunciam um campo que já não é campo e uma cidade fragmentada entre alegrias e desventuras, condomónios privados e bairros sociais. Apesar da grandiosidade de um espectáculo pouco humano visto de cima, distingui, aqui e ali, a casa onde estariam amigos que fui conhecendo desde que sou gente: o Lamas, a Mafalda, as gémeas Rita e Cristina Martins, e o Carlos Azevedo. Pensei que na quantidade de pessoas conhecidas e desconhecidas que estaria naquela paisagem, ocultas sob aquela constelação de pontos luminosos.

Olhando para a avó, tentei imaginar o que é que o meu avô me teria para contar naquele momento. Com ele partilhara vários pôr-do-sol naquele sítio. Era frequente acompanhá-los como casal, ouvir as histórias de infância e as memórias mais ou menos presentes. Tal como eu estava a fazer naquele momento, o avô lia quando esperava pelas indecisões de uma avó livre e artística. E depois partilhava as suas leituras e as inquietações com quem estava junto dele, família ou amigos. E eu tive o privilégio de estar junto dele muitas vezes, e de confidenciar parte do meu crescimento.

Se o avô estivesse no lugar onde estava sentado, e eu no banco de trás, talvez me falasse da energia de fusão nuclear. Ou das manchas solares de hélio. Ou nos anos-luz de estrelas que a NASA descobriu no último ano. Mas naquele sítio, àquela hora, provavelmente o avô falar-me-ia da filosofia clássica, na Escola de Atenas, de Aristóteles e Platão, da suma Beleza, da suma Bondade, da Justiça e da Verdade a que o Habermas se referia. E depois, dir-me-ia que quando partisse, estaria no Céu a pedir por mim.

Lá em baixo, vejo a mesma paisagem. As luzes têm várias tonalidades. Talvez na natureza nem existam cores definidas, nem preto nem branco. Mas no meu entendimento humano, com toda a minha pequenez tacanha e imperfeita, não consigo conceber o cosmos de outra maneira.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Este não é um texto de Amor

Muito tempo passou desde a última vez que escrevi neste nosso canto da nuvem. Diria até que não o consulto há bastante tempo, o que faz de mim um péssimo blogger. Mas espero não ter sido essa a minha postura fora da nuvem. Espero mesmo que a falta de vontade de escrever não tenha colidido com o mundo fora da minha caixa de ecrã que teima em acumular poeira e ferrugem, e cujo esquecimento já me entorpeceu os dedos no teclado.

Desculpas há muitas, bem sei. Foi a Faculdade. Foi a ida a Paris, a sessão de cinema de Bestas do Sul Selvagem, os almoços no Palácio dos Anjos. Foi, posso dizer, a segurança que me dás no dia-a-dia, o sorriso matinal com que me brindas nas paragens vítreas de Algés, o(s) jantar(es) no conforto caseiro, a cumplicidade, intimidade e a pele-com-pele da noite tépida e serena. Tornaste-te tão fundamental como eu nem sequer imaginei, e não quero que isso passe desapercebido. Nem no dia-a-dia apressado, nem no meu discurso de aniversário da Quinta de São Francisco. 

Sinto que o afastamento da escrita deve-se ao facto de estar próximo de ti, a ponto de me exprimir e de te ouvir, trocarmos carícias e afectos, olhares e suspiros. Mas agora que estamos longe, a escrita surge como a materialização de algo que as palavras ditas deixam passar. Será isso mau? Não me parece. De facto, todas as formas de comunicação surgem de desejos reprimidos. Quanto um homem se frustra a veicular o sentimento e a razão, inventa uma nova forma de expressão - um vocábulo, um idioma, um género artístico ou um meio de comunicação. E é assim que a civilidade se aprimora; buscamos de certo modo sublimar-nos e livrar-nos da nossa condição.

Devo dizer-te, nem que seja por escrito, que ensinaste-me a sonhar, dentro e fora dos portões daquela quinta, dentro e fora do nosso Amor. Vejo, a cada dia que passa, uma floresta a ser arrasada sem dó nem piedade, para que quando se plante uma árvore nós rejubilemos. Trata-se da ordem das coisas, do mero acaso, mas por vezes também é fruto da fé no progresso e na ganância. Depois vem a Starfucks tirar-nos o sentimento de culpa do café que bebemos e dos dólares que pagámos, por causa da árvore solitária que plantaram por nós. Vêm ainda os agiotas dos jornais e dos merdia para espalhar a notícia da árvore plantada onde antes havia uma floresta, para animar o povão. Talvez, dirás tu, seja essa a condição humana. Dirás também que, na nossa vida, nos devemos defender do pessimismo e do fatalismo e contentar-nos com a árvore que recuperaram. Mas tu és aquela pessoa que me faz acreditar que, se plantaram uma árvore, nós plantaremos a segunda. Ou a terceira...



Desflorestação na Amazónia. Haverá meio termo entre ser conivente e fazer a diferença?

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Dos espaços em branco




Devo dizer-te que tenho pensado várias vezes sobre o peso das tuas últimas palavras neste blog e na forma como me emocionaram, bem como nos acontecimentos das últimas semanas praticamente ao ponto de me impedirem de responder à altura. Confesso-te que na minha cabeça imaginei várias formas de te escrever de volta ou simplesmente de te surpreender com algo, apenas para constatar que os dias se acumulavam e que este nosso pequeno espaço partilhado permanecia em branco de forma infame da minha parte. É certo que mantivemos o nosso contacto e que várias coisas aconteceram deste lado da barricada entretanto, sendo os meus últimos dias por Nottingham um atestado dessa pequena esquizofrenia contida, contudo nada disto me basta realmente como justificação perante ti.

Quero que saibas que me sinto cheia, completa ao teu lado. Verdadeiramente una apenas quando estou contigo e constantemente admirada pela forma como te superas no dia a dia. Como te excedes não só nas tuas ambições (que apenas são desmedidas para quem não conhece aquilo que és capaz) mas também naquilo que entregas aos outros e ao universo que te rodeia, seja a nível emocional, intelectual ou até mesmo espiritual... seja no interesse crítico que tens em mudar o mundo à tua volta, pela fé trabalhada, pelas escapadelas ousadas de arco e flecha ou golfe urbano em telhados, pela tua dedicação à família, pela tua “mens sana in corpore sano", pelo teu talento que se revela melhor onde te dedicas de corpo e alma. Cada vez que penso que não podes entregar-te ou amar mais, tu provas o contrário... e sinto-me sempre inacreditavelmente privilegiada por partilhares uma parte especial de tudo isso comigo. Sabes que não digo nada disto de modo leviano mas terás de me desculpar a continência verbal prolongada porque talvez me esqueço de te dizer mais vezes aquilo que vejo em ti todos os dias.

Hoje foi um dia curiosamente pacato no meio das suas burocracias, apenas porque pude mostrar Nottingham calmamente à Madalena e deixá-la a vaguear enquanto eu tratava dos meus afazeres. Certo é que parámos para almoçar num restaurante italiano com um menu partilhado de nos encher a barriga e, no meio deste cenário, não só disfrutámos de um belo serão gastronómico como uma das conversas mais interessantes dos últimos tempos em termos de reflexão introspectiva mútua. A conversa tanto derivou para os traços de família e para as nossas diferenças e semelhanças partilhadas como inevitavelmente sobre os nossos namoros, até chegarmos à singular conclusão que tínhamos tido “discussões” semelhantes e que (num pequeno microcosmos intimista) as opiniões dela eram as tuas traduzidas e que as minhas correspondiam às do António. Talvez seja estranho pôr a coisa deste modo, mas de repente comecei a ouvir a minha irmã quase como se te estivesse a ouvir a ti, por mais longínqua que esta parecença de carácter esteja à primeira vista. É engraçado, gostei genuinamente de falar com ela sem pressas ao fim de todo este tempo, mas principalmente voltei a rever com outros olhos aquilo que achava que já tinha avaliado de todos os prismas.

Não se trata de falta de entrega ou de amor e não quero que o calor das tuas acções e emoções sejam alguma vez mitigados pela minha forma de ser. Trata-se de te tratar da forma excepcional que tu me tratas e que como verdadeiramente és. Julgo que não se trata de eu ter errado em algo particular. Trata-se de quebrar as expectativas e de te surpreender como tu fazes comigo, contigo, com tudo o que te rodeia. Exerces uma importância fundamental para mim que eu não quero da por garantida mas preciso também que relativizes por vezes um pouco as pequenas coisas, não por não terem importância, mas porque raramente são demonstrativas do que realmente sinto por ti.

Sei que contexto da ausência não ajuda porém sinto que, independentemente da turbulência pelo meio, crescemos. E sabe deus como falta pouco para o reencontro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

post-scriptum



 Sinto-me feliz por estares a aproveitar Nottingham ao máximo nestes últimos dias. Tens sido, pelo menos para mim, a prova inspiradora de que não é preciso ir-se propriamente à Escócia para arranjar programas aliciantes - quando eles abundam dentro da urbe. Para além de que terás mais que tempo para ir ao resto da ilha; só gostaria de um dia poder ser eu a ajudar-te nessa tarefa árdua.

 Aproveita ao máximo os teus últimos tempos, saindo aos sítios com o melhor vinho da cidade (porque não havia disso em Lund, por exemplo), com os grupos mais interessantes. Nos momentos de maior introspecção, não deixes de desenhar a fauna local que atravessa a passadeira, espera o autocarro ou acampa no jardim durante as tardes de sol. Estou contente por ti e tenho a certeza que a tua irmã vai adorar a recepção e rematar a estadia com muito estilo. Beijo saudoso.

(Chatsworth na imagem)

de admiração



Eis que se torna altura de escrever, porque sinto esse ímpeto ingovernável. Quero deixar claro o quanto gosto de ti. De forma fractal, holística, (micro)cósmica, e natural. "Nas pequenas coisas", como dizes na tua forma espontânea e pura.

É verdade que me inspiras, na forma como concentras tantas virtudes que, para mim, ainda são mais valiosas. E que gosto da tua sensual discreção, da tua simplicidade e modéstia nos gostos e nos gestos, na moderação das tuas palavras belas, pausadas e pautadas de harmonia. Pelo menos para mim, és um equilíbrio que diria impossível entre essa moderação e a certeza de convicções (equilíbrio esse onde eu claramente peco). Gosto de ti porque gosto de ti, porque sinto que despertas o melhor que há em mim de uma forma que eu só espero corresponder, fazendo-te sentir inspirada nas tuas criações - como as que ontem à noite me maravilharam (e outros projectos que certamente aparecerão). O teu swag na presença, a voz doce e quente, o riso trocista e os cabelos ao sol.

Podia alongar-me nas coisas que, em ti, me despertam, aspectos mais ou menos racionais, mas sinto que a descrição que fizesse de ti ficaria sempre aquém daquilo que és. Porque, talvez com o tempo e com tudo o que vivemos juntos, ao ficarmos pele com pele, com os chakras alinhados e uma bússola no pensamento, o mundo das palavras, ditas ou escritas, perde qualquer forma de protagonismo.

Quero que te sintas bem. Quero que não sintas que entre nós há um fosso. O fosso aparece com a falta de diálogo, com o medo de confrontar. O senhor Monet achou por bem encher o fosso do seu jardim com nenúfares e borboletas! E eu sinto que nos complementamos a ponto de nos excedermos. Pelo menos falo por mim. Tu tens (e dás-me) a moderação e a serenidade que me falta. Incitas-me a aproveitar o dia, é certo, sem ter aqueles picos alternados de modorra e stress, quase bipolares, que eu antes tinha, e dás-me uma segurança na existência só comparável à religião. Da mesma maneira que tu me fazes sentir que dás mais de ti ao mundo (de forma saudável e não alienada) comigo ao lado.

O que eu disse há três dias também me desconcertou. Disse algumas aberrações que te terão ofendido legitimamente e das quais me arrependo, como o questionar das nossas conversas rotineiras. Acima de tudo, o que disse foi o reflexo de tempos conturbados recentes, aliados a uma forma de tédio que surge quando quase toda a gente está em exames, e que dá espaço a pensamentos obscuros. Não acho, de todo, que o Erasmus tenha sido inútil a gerir a distância, nem que eu me tenha sentido infeliz ao longo do tempo. Pelo contrário, sempre me deste força. Também não estranhes o estalar da angústia a duas semanas do teu regresso, porque, como já te disse, as circunstâncias agora são outras. Eu afeiçoei-me à tua forma de comunicar antes, e a adaptação mútua é constante. Quero que confies na minha forma de me exprimir altamente sui generis, nas minhas emoções. Deduzo, da conversa que tivemos, que tenho um aspecto a mudar: ganhar sangue frio e discernimento para te preparar quando eu não estou bem. Esse tem sido o meu maior erro, não é intencional, mas tudo quero fazer para o mudar.

De resto, acho que aquilo que temos de fazer é não pensar. É sermos nós mesmos. Porque tive a catarse exagerada (comigo é difícil ser de outra maneira, infelizmente) e porque sinto cada vez mais que existe algo, para além das pequenas coisas, que teima em não esmorecer.

Eu amo-te.
O resto vem por acréscimo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

memoires


today my head is under construction





Agora que paro finalmente para me sentar e dar colheradas silenciosas na sopa quente, num daqueles dias que parecem não ter tido fim, sinto de facto que a minha cabeça está em construção. Um ligeiro latejar que acalma com a comida e a luz suave, apazigua as 12h horas ininterruptas de burocracias e ainda um bocado de desenho de modelo vivo para desintoxicar ao final do dia. O frio na rua no entanto é brutal e, acaso houve algum sol radiante, foi mesmo aquele que te falei de manhã e que me acompanhou à saída de casa, onde o gelo duro dos passeios deu-me a certeza que derraparia mais cedo ou mais tarde (pelo menos a queda ficou adiada para outro dia). De resto foi o mesmo frio e o mesmo tempo acinzentado mal cheguei ao centro da cidade e, agora que penso nisso, talvez estes tenham acompanhado o meu estado de afazeres ao longo do dia. Aquela breve satisfação inocente de caminhar nas ruas cobertas e neve e haver algum céu limpo, seguidas das horas a andar de departamento em departamento sem parar ou a mandar emails extensivos sob a coberta da biblioteca. Ainda que agora espere respostas, pelo menos sinto que hoje fiz tudo o que humanamente podia fazer ao meu alcance para despachar os empecilhos adiados: a possibilidade de alterar as datas de regresso, as ginásticas para conseguir as equivalências necessárias, e até a batalhada logística das cadeiras que supostamente ficarão agora repostas em 48h. No meio de todo este caos só a tua voz serena de manhã para me dar algum ânimo e energia.

De resto aproveito para exibir um dos meus ilustradores favoritos do momento, andrew archer.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sinapses

Na condição de nómada, não restava pedra sobre pedra no meu quarto. Não tinha sido só a minha irmã a usar o espaço para ouvir jazz nos serões de estudo, com o meu aval. Eram também as marcas das gatas, que usam a gaveta das meias para se abrigarem dos temporais que aconteceram dentro e fora de casa, durante toda a ausência.

No meio de tanta destruição só faltava a avó entrar pelas portas a dentro para "melhorar" o meu aposento. Não foi só para pendurar um quadro seu na parede, ou mudar de sítio e realçar as aguarelas do Tio João, sob o pretexto de "és um arquitecto, precisas de te inspirar". Do alto dos seus 91 anos e a personalidade alterada não me sinto capaz de repreender algo que é feito com a melhor das intenções. Mas que devia, devia!

Com o pó e o desleixo acumulado sobre os mais variados pertences, arrumar o quarto tem-se revelado uma experiência quase tão marcante como as andanças recentes. Uma viagem à Índia ou à Suécia revelam-me o mundo, fascinante na sua diversidade e nas pessoas que conheci; no repertório sensorial que me surpreendeu mesmo nos momentos mais monótonos. Mas o confronto com as quatro paredes que ocupei desde os seis anos é bastante revelador. Revisitei objectos que, neste momento, são as únicas provas físicas de épocas passadas, Refiro-me às moedas antigas, aos diplomas de piano, às prendas dos amigos, à roupa adolescente renegada, aos cancioneiros perdidos. Muitos objectos têm uma história, um significado, e são o único elo que me liga a um certo passado. Coisas há, como os lenços de escuteiro, que não têm qualquer valor numa prateleira poeirenta e recôndita, porém, a riqueza emocional daquela fase vale por si. Não posso admitir que foi uma experiência verdadeira pelo escasso e insignificante legado material, mas sim, pela marca indelével que em mim deixou.

Será desconcertante supor que tudo o que resta são as sinapses da memória e que não há um significado maior.

De todas as cogitações que me ocorreram durante a arrumação, a mais terrível foi a de que tenho coisas a mais. A quantidade de tralha que acumulei ao longo de anos é incrível, principalmente tendo em conta a inutilidade de grande parte das coisas. Coisas por vezes duplicadas ou triplicadas na camada de ignorância (ou da memória curta). Mas, pior, sinto falta de coragem para deitar fora muitas dessas coisas, para não as desperdiçar. Podia ter o mesmo conforto com uma ínfima parte daquilo que existe.

Parte da acumulação, da obesidade material, parece-me estar ligada com a insegurança e uma necessidade inconsciente de insuflar o ego. Sou incapaz de usar roupa que escolhi há cinco anos. Com que direito?

Sonho com o dia em que me satisfarei com aquilo que carregar numa mochila, e com toda a liberdade que se perde com a posse. E com as tuas duas cartas escritas que pude reler. Identifico-me contigo e com o apelo à ataraxia com que remataste ambas as cartas. A tua escrita é fabulosa e enche-me as medidas, na tua forma honesta e singela com que te expressas.


(na imagem, jovens suecos que se deixaram fotografar junto a todos os seus pertences, nos respectivos quartos. trabalho de Sannah Kvist)




sábado, 19 de janeiro de 2013

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

até que a neve nos separe


A segunda grande invasão de neve em Nottigham nesse início de 2013, segundo reza a lenda, deu-se com o avançar da tarde de forma subtil mas incansável. O vento apareceu como o convidado de excelência para este dia pelo que, como o aviso metereológico para hoje previa, os -3ºC sentem-se como -9ºC. I impress you not, bem sei, pelo menos perante um interlocutor difícil como tu que já teve a barba congelada com -13ºC no inverno escandinavo e que já suportou as noites agrestes no interior de comboios indianos com meio século. Porém dá-me o desconto da novidade a esta velha alma mediterrânica perante a neve ininterrupta do próximo fim de semana que tem varrido a Grã-Bretanha e em particular o sul do País de Gales. Será aliás curioso notar como corre a viagem amanhã até Bath e se não é interrompida se o tempo piorar (nem como será acordar para lá estar no ponto de encontro para a partida pouco clemente às 7h00 da manhã..). Até o malfadado casaco que a minha rica mãe fez questão que levasse e usasse saiu (literalmente) do armário para cumprir o seu verdadeiro desígnio com este tempo enquanto seguia para o meu tutorial do dia (a internet, a guerra fria, o cinema de andy warhol e até george orwell). Por agora hiberno na casa vazia com o calor da caneca de chá nas minhas mãos, o pequeno candeeiro que agora usamos como conforto caseiro acrescido e o caos da neve lá fora.

É notável, no entanto, como deste interior o cenário parece de uma serenidade implacável.

domingo, 13 de janeiro de 2013

diário de janeiro




O céu que agora cai, pálido e distante, é certamente um fraco substituto da luz gloriosa com que acordei esta manhã no meu quarto e que te queria descrever desde início. É uma luz carregada de promessas, mais ou menos vagas, para o dia e que transporta consigo um aconchego enganador perante as temperaturas mínimas lá fora. O manto branco de gelo lá fora surpreende-me, cobrindo as vastas áreas proscritas pela sombra, os telhados das casas e até o topo do carro estacionado em frente à nossa porta. É um contraste belo principalmente do abrigo quente e preguiçoso da casa. O dia de ontem porém, sendo semelhante em temperaturas à excepção do gelo nocturno, serviu-me para caminhar sozinha até à cidade e reconciliar-me com esse frio, com o inverno, com o regresso à grã-bretanha e, em última análise suponho, comigo mesma.

Noto que o mesmo caminho ao longo do parque que já repeti inúmeras vezes (nomeadamente contigo) tem sido um pequeno calendário visual da minha estadia cá e de espanto perante todos esses meses que já passaram. Já não existem castanhas caídas no chão ou a explosão de cor pródiga do outono; agora, olhando exactamente do mesmo lugar, a única ligeira variação de cores é entre os tons de castanhos das árvores despidas e da luz mais ou menos benevolente. Este limbo de tempo entre a minha chegada e partida breve é algo sobre o qual nem me tinha dado devidamente conta até há bem pouco tempo, quando falava com a francesa Marie sobre o seu Natal e passagem de ano (passados curiosamente no México com a família, algo tanto mais ingrato já que esse dia parecia sair de um conto negro de Dickens, coberto de nevoeiro espesso e fracas luzes de manhã à noite). Enquanto falávamos sobre as curtas três semanas que tínhamos para este projecto, só então tomei plena consciência que essas semanas eram verdadeiramente já só duas e que o retornar à familiaridade terá de ser quebrado rapidamente por outra mudança efectiva e por outra familiaridade. Que este quarto onde me sento agora e que já ocupei com a minha presença (desde os livros de cabeceira, roupa no chão, aos jornais colhidos e empilhados) não é mais do que passageiro e que possivelmente dentro de um mês estará despido de qualquer vestígio meu. É algo profundamente estranho que ainda não consegui agarrar plenamente na consciência, no entanto, as tuas palavras ponderadas na despedida de Lund não deixam de ecoar no meu espírito - com a única diferença que tu não tiveste de voltar. Eu fui e reencontrei-te(me) em Lisboa durante quase um mês, ao fim do qual tive de regressar para continuar um ciclo que também ele se fecha. Metade das pessoas também já foi efectivamente, o que aumenta essa disparidade.

Enfim, apesar do frio, os dias têm sido de facto generosos entre compor o meu espaço e voltar a estar embrenhada no que gosto como desenhar (eu e o Henrique temos conseguido prolongar as sessões de desenho depois do jantar com Miles Davis a tocar na cozinha). Talvez por isso mesmo esta existência em soluço me faça mais confusão, e quem sabe, até os soluços na nossa forma de comunicar nestes dias e dos quais não tens culpa. Tento esquivar-me a este sentimento como posso e até já fiz finalmente da minha parede o repertório de inspiração visual que precisarei nos próximos dias e que vês na imagem em cima. Quanto a ti, sei que provavelmente só lerás isto quando já estiveres em Lisboa, mas espero que espremas o máximo que essa viagem tem para te oferecer nos últimos dias qual Gonçalo Cadilhe, e que o regresso também te dê o apaziguamento que precisas.


sábado, 12 de janeiro de 2013

Sobrevivi a Bishnupur (e a dois mil e doze)

Foi um dia peculiar. Entrei no comboio mais lotado que alguma vez vi. Não sei se são os bancos que esticam ou as pessoas que encolhem, certo é que há sempre lugar para mais uma horde que, aqui e ali, vai recheando as paredes de ferro meciço. Trudo é tosco, cru, parece que vai explodir a qualquer momento. Mas é no limite que a vida vai correndo por estas paragens.

Sempre me deliciei ao ver os vendedores que percorrem as dezenas de carruagens do comboio totalmente cobertos com as mercadorias mais incríveis. Cada um tem o seu grito, o timbre distintivo que acorda a multidão sonolenta. "Chai, chai", berra o vendedor de chá, segurando, numa mão, uma chaleira, e taças de terracota descartáveis na outra. Mas o som de pica-pau, a pancada seca na madeira pertence ao engraxador, que às vezes se dá ao luxo de também vender atacadores. Os outros vendedores vendem frutos secos e frescos, estejam eles no corredor ou nas janelas do comboio enquanto este está parado.

Pois ontem descobri um novo e incrível vendedor: o de ovos cozidos. Leva um cesto de verga forrado a papel de jornal. Quando vê um cliente, descasca o ovo, corta-o ao meio com uma lâmina negra e despeja aquilo que me pareceu ser picante, bem no meio.

Viajante solitário pela primeira vez, tudo me parece ainda mais vivido. O ambiente tem todos os ingredientes para ser hostil. A turba de gente oprime, principalmente se estiver a olhar para mim de alto a baixo, na condição de primeiro europeu avistado em vida. No entanto, consigo abstrair-me facilmente da estranheza. Escrevo, leio, por vezes até os desenho. Há sempre alguém que fala inglês, com quem consigo aprender alguma coisa. Perguntam-me o quão grande é a Europa, e eu sou forçado a admitir a sua pequenez. Eu, do meu lado, faço todo o tipo de perguntas. Porque é que a vaca, sendo sagrada, ajuda nos trabalhos de campo? Ninguém me sabe responder. Mas, ainda assim, vou tentando compreender este mundo pouco ou nada racional.

As pessoas que vou conhecendo pedem-me o mail, tiram fotos ao meu lado com o telemovel de última geração e, quando atendem chamadas, exclamam Portugal no meio das conversas indecifráveis.

Confesso que tive medo quando saí da estação de Bishnupur. O sol ia baixo e teria de me desenrascar para chegar ao templo. Tentei regatear o taxi, que devia ser o único automóvel de toda a localidade. Assim foi. Buzinões atrás de buzinões e a multidão ia abrindo caminho. Sentia-me desconcertado por olhar para trás e ver apenas uma nuvem de poeira como agradecimento aos plebeus.

Parei em dois dos três famosos templos. Edifícios peculiares, cujos tijolos de terracota estavam decorados com motivos do quotidiano. Um dos templos tinha uma pequena pirâmide e, no toque com o chão, quatro camadas de arcadas, cada vez mais escuras à medida que se avançava para o interior.

De volta ao taxi, um aldeão mostrou-me uma factura. Eram 20 rúpias de estacionamento, na berma de um caminho te terra batida. Apesar do mísero valor, enchi-me de cólera. Era tempo de voltar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Bra(h)mido dos Ghats

Não sei o que fiz para chegar a este sítio tão improvável. Senão repara: saltei da (in)tranquilidade da eterna bruma do Ganges, esse rio sagrado, para as casas semeadas na selva de que ontem te falei.

Kharakpur pode ter sido uma daquelas ruínas bengalis cheias de Moglis que inspiraram o senhor Rudyard Kipling a escrever The Jungle Book em Calcutá, a cidade onde viveu. O mato conquistou as linhas de comboio e os descomunais hangares ferroviários de outrora. Depois, mais longe do centro, a o verde da floresta oculta uma outra floresta humana, composta de lagos de esgoto, campos de críquete, pavilhões da faculdade e bairros precários onde tudo se vende.

Finalmente conseguimos ter um dia de descanso, depois de noites quase sem dormir em comboios de ferro maciço, dos quais os locais se apropriam de todas as formas possíveis e imaginárias. Ainda ontem, vindos do caos de Calcutá, um polícia acompanhou-nos só para nos levar até à plataforma certa, tal era a multidão naquela estação ciclópica. O comboio era um dos locais: portas escancaradas durante a viagem e sete pessoas sentadas conde cabem cinco. Várias vezes nos pediram para encolhermos, porém, formou-se ali uma cumplicidade inesperada. As pessoas diziam-nos atenciosamente quanto tempo faltava para a nossa estação. Pessoas simples e afáveis. Nunca neste país me senti em perigo, porém, raras são as pessoas que falam estrangeiro que não seja Hindi. Quem sabe, pergunta num iglês escasso, where are you from. Perante a resposta, dizem não saber onde é Portugal.

Hoje decidimos ir às compras, aproveitando os preços pornográficos deste país. Um senhor viu-nos na rua, meteu conversa, disse ser cristão e colou-se a nós. Que nos ajudaria nas compras, que apenas queria ajudar. Era idoso, enxota-lo seria indelicado, e foi ficando. Levou-nos ao bazar - um remendo de terra batida, onde as motas passam a uma velocidade estonteante. As lojas estavam quase todas fechadas, porque quinta-feira é dia santo. Não contentes, fomos a um centro comercial. Arames espetados no remate da fachada inacabada, certo é que nele havia lojas com coisas da levi's e marcas afins. Obviamente não fui às marcas. Comprei, entre outras coisas, uma túnica local perfeitamente hipsterizável (pudera, até agora, a minha única necessidade comsumista nestas terras tinha sido a compra de dois livros sobre o budismo).

Levar as compras não estava fácil e por isso contratámos dois riquexós de pedais. Eu fui a sós com o taxista e a bagagem e estava a ficar entediado com as fintas que o riquexó fazia às pessoas, vacas, bicicletas, motas, autocarros e camiões que apareciam de todos os lados, sem qualquer sentido de trânsito predefinido. Pois bem, mal entrámos no campus da faculdade e a estrada alargou e acalmou, pedi ao taxista para saltar para o meu banco enquando eu pedalava. Devo dizer que, para além de proletário, o momento foi de emoção. Ultrapassei num instante o riquexó do meu pai e do pendura indiano, que olhou para mim, chocado com aquela afronta às castas.

Consta que o meu pai lhe perguntou se não lhe fazia confusão haver por cá tantas pessoas que são usadas como animais de carga e que apenas vivem para transportar outros seres humanos. O senhor indiano respondeu. no alto do seu cristianismo, "Yeah, I know what you mean! Anyway you can't turn a donkey into a horse."

E o sol púrpura escondia-se entre a folhagem.