O céu que agora cai, pálido e distante, é certamente um fraco substituto da luz gloriosa com que acordei esta manhã no meu quarto e que te queria descrever desde início. É uma luz carregada de promessas, mais ou menos vagas, para o dia e que transporta consigo um aconchego enganador perante as temperaturas mínimas lá fora. O manto branco de gelo lá fora surpreende-me, cobrindo as vastas áreas proscritas pela sombra, os telhados das casas e até o topo do carro estacionado em frente à nossa porta. É um contraste belo principalmente do abrigo quente e preguiçoso da casa. O dia de ontem porém, sendo semelhante em temperaturas à excepção do gelo nocturno, serviu-me para caminhar sozinha até à cidade e reconciliar-me com esse frio, com o inverno, com o regresso à grã-bretanha e, em última análise suponho, comigo mesma.
Noto que o mesmo caminho ao longo do parque que já repeti inúmeras vezes (nomeadamente contigo) tem sido um pequeno calendário visual da minha estadia cá e de espanto perante todos esses meses que já passaram. Já não existem castanhas caídas no chão ou a explosão de cor pródiga do outono; agora, olhando exactamente do mesmo lugar, a única ligeira variação de cores é entre os tons de castanhos das árvores despidas e da luz mais ou menos benevolente. Este limbo de tempo entre a minha chegada e partida breve é algo sobre o qual nem me tinha dado devidamente conta até há bem pouco tempo, quando falava com a francesa Marie sobre o seu Natal e passagem de ano (passados curiosamente no México com a família, algo tanto mais ingrato já que esse dia parecia sair de um conto negro de Dickens, coberto de nevoeiro espesso e fracas luzes de manhã à noite). Enquanto falávamos sobre as curtas três semanas que tínhamos para este projecto, só então tomei plena consciência que essas semanas eram verdadeiramente já só duas e que o retornar à familiaridade terá de ser quebrado rapidamente por outra mudança efectiva e por outra familiaridade. Que este quarto onde me sento agora e que já ocupei com a minha presença (desde os livros de cabeceira, roupa no chão, aos jornais colhidos e empilhados) não é mais do que passageiro e que possivelmente dentro de um mês estará despido de qualquer vestígio meu. É algo profundamente estranho que ainda não consegui agarrar plenamente na consciência, no entanto, as tuas palavras ponderadas na despedida de Lund não deixam de ecoar no meu espírito - com a única diferença que tu não tiveste de voltar. Eu fui e reencontrei-te(me) em Lisboa durante quase um mês, ao fim do qual tive de regressar para continuar um ciclo que também ele se fecha. Metade das pessoas também já foi efectivamente, o que aumenta essa disparidade.
Enfim, apesar do frio, os dias têm sido de facto generosos entre compor o meu espaço e voltar a estar embrenhada no que gosto como desenhar (eu e o Henrique temos conseguido prolongar as sessões de desenho depois do jantar com Miles Davis a tocar na cozinha). Talvez por isso mesmo esta existência em soluço me faça mais confusão, e quem sabe, até os soluços na nossa forma de comunicar nestes dias e dos quais não tens culpa. Tento esquivar-me a este sentimento como posso e até já fiz finalmente da minha parede o repertório de inspiração visual que precisarei nos próximos dias e que vês na imagem em cima. Quanto a ti, sei que provavelmente só lerás isto quando já estiveres em Lisboa, mas espero que espremas o máximo que essa viagem tem para te oferecer nos últimos dias qual Gonçalo Cadilhe, e que o regresso também te dê o apaziguamento que precisas.
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