terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Dos espaços em branco
Devo dizer-te que tenho pensado várias vezes sobre o peso das tuas últimas palavras neste blog e na forma como me emocionaram, bem como nos acontecimentos das últimas semanas praticamente ao ponto de me impedirem de responder à altura. Confesso-te que na minha cabeça imaginei várias formas de te escrever de volta ou simplesmente de te surpreender com algo, apenas para constatar que os dias se acumulavam e que este nosso pequeno espaço partilhado permanecia em branco de forma infame da minha parte. É certo que mantivemos o nosso contacto e que várias coisas aconteceram deste lado da barricada entretanto, sendo os meus últimos dias por Nottingham um atestado dessa pequena esquizofrenia contida, contudo nada disto me basta realmente como justificação perante ti.
Quero que saibas que me sinto cheia, completa ao teu lado. Verdadeiramente una apenas quando estou contigo e constantemente admirada pela forma como te superas no dia a dia. Como te excedes não só nas tuas ambições (que apenas são desmedidas para quem não conhece aquilo que és capaz) mas também naquilo que entregas aos outros e ao universo que te rodeia, seja a nível emocional, intelectual ou até mesmo espiritual... seja no interesse crítico que tens em mudar o mundo à tua volta, pela fé trabalhada, pelas escapadelas ousadas de arco e flecha ou golfe urbano em telhados, pela tua dedicação à família, pela tua “mens sana in corpore sano", pelo teu talento que se revela melhor onde te dedicas de corpo e alma. Cada vez que penso que não podes entregar-te ou amar mais, tu provas o contrário... e sinto-me sempre inacreditavelmente privilegiada por partilhares uma parte especial de tudo isso comigo. Sabes que não digo nada disto de modo leviano mas terás de me desculpar a continência verbal prolongada porque talvez me esqueço de te dizer mais vezes aquilo que vejo em ti todos os dias.
Hoje foi um dia curiosamente pacato no meio das suas burocracias, apenas porque pude mostrar Nottingham calmamente à Madalena e deixá-la a vaguear enquanto eu tratava dos meus afazeres. Certo é que parámos para almoçar num restaurante italiano com um menu partilhado de nos encher a barriga e, no meio deste cenário, não só disfrutámos de um belo serão gastronómico como uma das conversas mais interessantes dos últimos tempos em termos de reflexão introspectiva mútua. A conversa tanto derivou para os traços de família e para as nossas diferenças e semelhanças partilhadas como inevitavelmente sobre os nossos namoros, até chegarmos à singular conclusão que tínhamos tido “discussões” semelhantes e que (num pequeno microcosmos intimista) as opiniões dela eram as tuas traduzidas e que as minhas correspondiam às do António. Talvez seja estranho pôr a coisa deste modo, mas de repente comecei a ouvir a minha irmã quase como se te estivesse a ouvir a ti, por mais longínqua que esta parecença de carácter esteja à primeira vista. É engraçado, gostei genuinamente de falar com ela sem pressas ao fim de todo este tempo, mas principalmente voltei a rever com outros olhos aquilo que achava que já tinha avaliado de todos os prismas.
Não se trata de falta de entrega ou de amor e não quero que o calor das tuas acções e emoções sejam alguma vez mitigados pela minha forma de ser. Trata-se de te tratar da forma excepcional que tu me tratas e que como verdadeiramente és. Julgo que não se trata de eu ter errado em algo particular. Trata-se de quebrar as expectativas e de te surpreender como tu fazes comigo, contigo, com tudo o que te rodeia. Exerces uma importância fundamental para mim que eu não quero da por garantida mas preciso também que relativizes por vezes um pouco as pequenas coisas, não por não terem importância, mas porque raramente são demonstrativas do que realmente sinto por ti.
Sei que contexto da ausência não ajuda porém sinto que, independentemente da turbulência pelo meio, crescemos. E sabe deus como falta pouco para o reencontro.
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