Na condição de nómada, não restava pedra sobre pedra no meu quarto. Não tinha sido só a minha irmã a usar o espaço para ouvir jazz nos serões de estudo, com o meu aval. Eram também as marcas das gatas, que usam a gaveta das meias para se abrigarem dos temporais que aconteceram dentro e fora de casa, durante toda a ausência.
No meio de tanta destruição só faltava a avó entrar pelas portas a dentro para "melhorar" o meu aposento. Não foi só para pendurar um quadro seu na parede, ou mudar de sítio e realçar as aguarelas do Tio João, sob o pretexto de "és um arquitecto, precisas de te inspirar". Do alto dos seus 91 anos e a personalidade alterada não me sinto capaz de repreender algo que é feito com a melhor das intenções. Mas que devia, devia!
Com o pó e o desleixo acumulado sobre os mais variados pertences, arrumar o quarto tem-se revelado uma experiência quase tão marcante como as andanças recentes. Uma viagem à Índia ou à Suécia revelam-me o mundo, fascinante na sua diversidade e nas pessoas que conheci; no repertório sensorial que me surpreendeu mesmo nos momentos mais monótonos. Mas o confronto com as quatro paredes que ocupei desde os seis anos é bastante revelador. Revisitei objectos que, neste momento, são as únicas provas físicas de épocas passadas, Refiro-me às moedas antigas, aos diplomas de piano, às prendas dos amigos, à roupa adolescente renegada, aos cancioneiros perdidos. Muitos objectos têm uma história, um significado, e são o único elo que me liga a um certo passado. Coisas há, como os lenços de escuteiro, que não têm qualquer valor numa prateleira poeirenta e recôndita, porém, a riqueza emocional daquela fase vale por si. Não posso admitir que foi uma experiência verdadeira pelo escasso e insignificante legado material, mas sim, pela marca indelével que em mim deixou.
Será desconcertante supor que tudo o que resta são as sinapses da memória e que não há um significado maior.
De todas as cogitações que me ocorreram durante a arrumação, a mais terrível foi a de que tenho coisas a mais. A quantidade de tralha que acumulei ao longo de anos é incrível, principalmente tendo em conta a inutilidade de grande parte das coisas. Coisas por vezes duplicadas ou triplicadas na camada de ignorância (ou da memória curta). Mas, pior, sinto falta de coragem para deitar fora muitas dessas coisas, para não as desperdiçar. Podia ter o mesmo conforto com uma ínfima parte daquilo que existe.
Parte da acumulação, da obesidade material, parece-me estar ligada com a insegurança e uma necessidade inconsciente de insuflar o ego. Sou incapaz de usar roupa que escolhi há cinco anos. Com que direito?
Sonho com o dia em que me satisfarei com aquilo que carregar numa mochila, e com toda a liberdade que se perde com a posse. E com as tuas duas cartas escritas que pude reler. Identifico-me contigo e com o apelo à ataraxia com que remataste ambas as cartas. A tua escrita é fabulosa e enche-me as medidas, na tua forma honesta e singela com que te expressas.
Com o pó e o desleixo acumulado sobre os mais variados pertences, arrumar o quarto tem-se revelado uma experiência quase tão marcante como as andanças recentes. Uma viagem à Índia ou à Suécia revelam-me o mundo, fascinante na sua diversidade e nas pessoas que conheci; no repertório sensorial que me surpreendeu mesmo nos momentos mais monótonos. Mas o confronto com as quatro paredes que ocupei desde os seis anos é bastante revelador. Revisitei objectos que, neste momento, são as únicas provas físicas de épocas passadas, Refiro-me às moedas antigas, aos diplomas de piano, às prendas dos amigos, à roupa adolescente renegada, aos cancioneiros perdidos. Muitos objectos têm uma história, um significado, e são o único elo que me liga a um certo passado. Coisas há, como os lenços de escuteiro, que não têm qualquer valor numa prateleira poeirenta e recôndita, porém, a riqueza emocional daquela fase vale por si. Não posso admitir que foi uma experiência verdadeira pelo escasso e insignificante legado material, mas sim, pela marca indelével que em mim deixou.
Será desconcertante supor que tudo o que resta são as sinapses da memória e que não há um significado maior.
De todas as cogitações que me ocorreram durante a arrumação, a mais terrível foi a de que tenho coisas a mais. A quantidade de tralha que acumulei ao longo de anos é incrível, principalmente tendo em conta a inutilidade de grande parte das coisas. Coisas por vezes duplicadas ou triplicadas na camada de ignorância (ou da memória curta). Mas, pior, sinto falta de coragem para deitar fora muitas dessas coisas, para não as desperdiçar. Podia ter o mesmo conforto com uma ínfima parte daquilo que existe.
Parte da acumulação, da obesidade material, parece-me estar ligada com a insegurança e uma necessidade inconsciente de insuflar o ego. Sou incapaz de usar roupa que escolhi há cinco anos. Com que direito?
Sonho com o dia em que me satisfarei com aquilo que carregar numa mochila, e com toda a liberdade que se perde com a posse. E com as tuas duas cartas escritas que pude reler. Identifico-me contigo e com o apelo à ataraxia com que remataste ambas as cartas. A tua escrita é fabulosa e enche-me as medidas, na tua forma honesta e singela com que te expressas.



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