Suavemente, as luzes do carro deslizavam sobre o restolho de verão. A erva pisada ia libertando um odor puro e fresco, onde se imiscuem as mais profundas memórias de infância e o desejo ardente de que este ciclo estival se repita, ano após ano.
Apaguei as luzes do carro, e apenas via ao longe a luz ténue de um carro de namorados, que bem aproveitavam a noite morna. Ao lado olhei para a avó, que libertava um olhar vivo que não via há bastante tempo.
- Gostas deste sítio? - perguntei eu.
- É fantástico! Que vista!
Atrás da erva ondulante, mostravam-se os montes dos subúrbios, onde as luzes denunciavam aquelas toponímias que habitamos e que, ao mesmo tempo, fingimos não conhecer.
- É uma bela vista! - deleitou-se a avó.
- O que é que tudo isto te faz lembrar? - perguntei eu.
- Não sei. É uma cidade. - comentou, laconicamente.
- Pois a mim - anunciei, trinfalmente - parece um ser vivo. Os carros movem-se como o sangue nas veias e as luzes das casas são como as células; é como se cada uma iluminasse uma família diferente.
- Bem visto - rematou a avó, rodando a cabeça para melhor contemplar todo aquele presépio suburbano.
Saquei um livro, aquele livro que trouxe da biblioteca, e principiei a ler. Soluçando, tentei traduzir em voz alta para a avó ouvir. O texto referia-se à pintura do Palácio Público de Siena, Alegoria do Bom Governo, de Ambrogio Lorenzetti. Trata-se de um fresco que representa uma cidade coesa, onde os vários edifícios têm a mesma traça, os espaços públicos são acessíveis a todos e, ao redor da cidade, distinguem-se as searas que a alimentam.
Olhando ao meu redor, via uma cidade desesperançada, quase antagónica à Alegoria do Bom Governo, onde, apesar de tudo, os carros levam as pessoas saciadas do Dolce Vita Tejo. Mas os montes, iluminados parcialmente, anunciam um campo que já não é campo e uma cidade fragmentada entre alegrias e desventuras, condomónios privados e bairros sociais. Apesar da grandiosidade de um espectáculo pouco humano visto de cima, distingui, aqui e ali, a casa onde estariam amigos que fui conhecendo desde que sou gente: o Lamas, a Mafalda, as gémeas Rita e Cristina Martins, e o Carlos Azevedo. Pensei que na quantidade de pessoas conhecidas e desconhecidas que estaria naquela paisagem, ocultas sob aquela constelação de pontos luminosos.
Olhando para a avó, tentei imaginar o que é que o meu avô me teria para contar naquele momento. Com ele partilhara vários pôr-do-sol naquele sítio. Era frequente acompanhá-los como casal, ouvir as histórias de infância e as memórias mais ou menos presentes. Tal como eu estava a fazer naquele momento, o avô lia quando esperava pelas indecisões de uma avó livre e artística. E depois partilhava as suas leituras e as inquietações com quem estava junto dele, família ou amigos. E eu tive o privilégio de estar junto dele muitas vezes, e de confidenciar parte do meu crescimento.
Se o avô estivesse no lugar onde estava sentado, e eu no banco de trás, talvez me falasse da energia de fusão nuclear. Ou das manchas solares de hélio. Ou nos anos-luz de estrelas que a NASA descobriu no último ano. Mas naquele sítio, àquela hora, provavelmente o avô falar-me-ia da filosofia clássica, na Escola de Atenas, de Aristóteles e Platão, da suma Beleza, da suma Bondade, da Justiça e da Verdade a que o Habermas se referia. E depois, dir-me-ia que quando partisse, estaria no Céu a pedir por mim.
Lá em baixo, vejo a mesma paisagem. As luzes têm várias tonalidades. Talvez na natureza nem existam cores definidas, nem preto nem branco. Mas no meu entendimento humano, com toda a minha pequenez tacanha e imperfeita, não consigo conceber o cosmos de outra maneira.
Apaguei as luzes do carro, e apenas via ao longe a luz ténue de um carro de namorados, que bem aproveitavam a noite morna. Ao lado olhei para a avó, que libertava um olhar vivo que não via há bastante tempo.
- Gostas deste sítio? - perguntei eu.
- É fantástico! Que vista!
Atrás da erva ondulante, mostravam-se os montes dos subúrbios, onde as luzes denunciavam aquelas toponímias que habitamos e que, ao mesmo tempo, fingimos não conhecer.
- É uma bela vista! - deleitou-se a avó.
- O que é que tudo isto te faz lembrar? - perguntei eu.
- Não sei. É uma cidade. - comentou, laconicamente.
- Pois a mim - anunciei, trinfalmente - parece um ser vivo. Os carros movem-se como o sangue nas veias e as luzes das casas são como as células; é como se cada uma iluminasse uma família diferente.
- Bem visto - rematou a avó, rodando a cabeça para melhor contemplar todo aquele presépio suburbano.
Saquei um livro, aquele livro que trouxe da biblioteca, e principiei a ler. Soluçando, tentei traduzir em voz alta para a avó ouvir. O texto referia-se à pintura do Palácio Público de Siena, Alegoria do Bom Governo, de Ambrogio Lorenzetti. Trata-se de um fresco que representa uma cidade coesa, onde os vários edifícios têm a mesma traça, os espaços públicos são acessíveis a todos e, ao redor da cidade, distinguem-se as searas que a alimentam.
Olhando ao meu redor, via uma cidade desesperançada, quase antagónica à Alegoria do Bom Governo, onde, apesar de tudo, os carros levam as pessoas saciadas do Dolce Vita Tejo. Mas os montes, iluminados parcialmente, anunciam um campo que já não é campo e uma cidade fragmentada entre alegrias e desventuras, condomónios privados e bairros sociais. Apesar da grandiosidade de um espectáculo pouco humano visto de cima, distingui, aqui e ali, a casa onde estariam amigos que fui conhecendo desde que sou gente: o Lamas, a Mafalda, as gémeas Rita e Cristina Martins, e o Carlos Azevedo. Pensei que na quantidade de pessoas conhecidas e desconhecidas que estaria naquela paisagem, ocultas sob aquela constelação de pontos luminosos.
Olhando para a avó, tentei imaginar o que é que o meu avô me teria para contar naquele momento. Com ele partilhara vários pôr-do-sol naquele sítio. Era frequente acompanhá-los como casal, ouvir as histórias de infância e as memórias mais ou menos presentes. Tal como eu estava a fazer naquele momento, o avô lia quando esperava pelas indecisões de uma avó livre e artística. E depois partilhava as suas leituras e as inquietações com quem estava junto dele, família ou amigos. E eu tive o privilégio de estar junto dele muitas vezes, e de confidenciar parte do meu crescimento.
Se o avô estivesse no lugar onde estava sentado, e eu no banco de trás, talvez me falasse da energia de fusão nuclear. Ou das manchas solares de hélio. Ou nos anos-luz de estrelas que a NASA descobriu no último ano. Mas naquele sítio, àquela hora, provavelmente o avô falar-me-ia da filosofia clássica, na Escola de Atenas, de Aristóteles e Platão, da suma Beleza, da suma Bondade, da Justiça e da Verdade a que o Habermas se referia. E depois, dir-me-ia que quando partisse, estaria no Céu a pedir por mim.
Lá em baixo, vejo a mesma paisagem. As luzes têm várias tonalidades. Talvez na natureza nem existam cores definidas, nem preto nem branco. Mas no meu entendimento humano, com toda a minha pequenez tacanha e imperfeita, não consigo conceber o cosmos de outra maneira.
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