quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Bra(h)mido dos Ghats

Não sei o que fiz para chegar a este sítio tão improvável. Senão repara: saltei da (in)tranquilidade da eterna bruma do Ganges, esse rio sagrado, para as casas semeadas na selva de que ontem te falei.

Kharakpur pode ter sido uma daquelas ruínas bengalis cheias de Moglis que inspiraram o senhor Rudyard Kipling a escrever The Jungle Book em Calcutá, a cidade onde viveu. O mato conquistou as linhas de comboio e os descomunais hangares ferroviários de outrora. Depois, mais longe do centro, a o verde da floresta oculta uma outra floresta humana, composta de lagos de esgoto, campos de críquete, pavilhões da faculdade e bairros precários onde tudo se vende.

Finalmente conseguimos ter um dia de descanso, depois de noites quase sem dormir em comboios de ferro maciço, dos quais os locais se apropriam de todas as formas possíveis e imaginárias. Ainda ontem, vindos do caos de Calcutá, um polícia acompanhou-nos só para nos levar até à plataforma certa, tal era a multidão naquela estação ciclópica. O comboio era um dos locais: portas escancaradas durante a viagem e sete pessoas sentadas conde cabem cinco. Várias vezes nos pediram para encolhermos, porém, formou-se ali uma cumplicidade inesperada. As pessoas diziam-nos atenciosamente quanto tempo faltava para a nossa estação. Pessoas simples e afáveis. Nunca neste país me senti em perigo, porém, raras são as pessoas que falam estrangeiro que não seja Hindi. Quem sabe, pergunta num iglês escasso, where are you from. Perante a resposta, dizem não saber onde é Portugal.

Hoje decidimos ir às compras, aproveitando os preços pornográficos deste país. Um senhor viu-nos na rua, meteu conversa, disse ser cristão e colou-se a nós. Que nos ajudaria nas compras, que apenas queria ajudar. Era idoso, enxota-lo seria indelicado, e foi ficando. Levou-nos ao bazar - um remendo de terra batida, onde as motas passam a uma velocidade estonteante. As lojas estavam quase todas fechadas, porque quinta-feira é dia santo. Não contentes, fomos a um centro comercial. Arames espetados no remate da fachada inacabada, certo é que nele havia lojas com coisas da levi's e marcas afins. Obviamente não fui às marcas. Comprei, entre outras coisas, uma túnica local perfeitamente hipsterizável (pudera, até agora, a minha única necessidade comsumista nestas terras tinha sido a compra de dois livros sobre o budismo).

Levar as compras não estava fácil e por isso contratámos dois riquexós de pedais. Eu fui a sós com o taxista e a bagagem e estava a ficar entediado com as fintas que o riquexó fazia às pessoas, vacas, bicicletas, motas, autocarros e camiões que apareciam de todos os lados, sem qualquer sentido de trânsito predefinido. Pois bem, mal entrámos no campus da faculdade e a estrada alargou e acalmou, pedi ao taxista para saltar para o meu banco enquando eu pedalava. Devo dizer que, para além de proletário, o momento foi de emoção. Ultrapassei num instante o riquexó do meu pai e do pendura indiano, que olhou para mim, chocado com aquela afronta às castas.

Consta que o meu pai lhe perguntou se não lhe fazia confusão haver por cá tantas pessoas que são usadas como animais de carga e que apenas vivem para transportar outros seres humanos. O senhor indiano respondeu. no alto do seu cristianismo, "Yeah, I know what you mean! Anyway you can't turn a donkey into a horse."

E o sol púrpura escondia-se entre a folhagem.

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