Foi um dia peculiar. Entrei no comboio mais lotado que alguma vez vi. Não sei se são os bancos que esticam ou as pessoas que encolhem, certo é que há sempre lugar para mais uma horde que, aqui e ali, vai recheando as paredes de ferro meciço. Trudo é tosco, cru, parece que vai explodir a qualquer momento. Mas é no limite que a vida vai correndo por estas paragens.
Sempre me deliciei ao ver os vendedores que percorrem as dezenas de carruagens do comboio totalmente cobertos com as mercadorias mais incríveis. Cada um tem o seu grito, o timbre distintivo que acorda a multidão sonolenta. "Chai, chai", berra o vendedor de chá, segurando, numa mão, uma chaleira, e taças de terracota descartáveis na outra. Mas o som de pica-pau, a pancada seca na madeira pertence ao engraxador, que às vezes se dá ao luxo de também vender atacadores. Os outros vendedores vendem frutos secos e frescos, estejam eles no corredor ou nas janelas do comboio enquanto este está parado.
Pois ontem descobri um novo e incrível vendedor: o de ovos cozidos. Leva um cesto de verga forrado a papel de jornal. Quando vê um cliente, descasca o ovo, corta-o ao meio com uma lâmina negra e despeja aquilo que me pareceu ser picante, bem no meio.
Viajante solitário pela primeira vez, tudo me parece ainda mais vivido. O ambiente tem todos os ingredientes para ser hostil. A turba de gente oprime, principalmente se estiver a olhar para mim de alto a baixo, na condição de primeiro europeu avistado em vida. No entanto, consigo abstrair-me facilmente da estranheza. Escrevo, leio, por vezes até os desenho. Há sempre alguém que fala inglês, com quem consigo aprender alguma coisa. Perguntam-me o quão grande é a Europa, e eu sou forçado a admitir a sua pequenez. Eu, do meu lado, faço todo o tipo de perguntas. Porque é que a vaca, sendo sagrada, ajuda nos trabalhos de campo? Ninguém me sabe responder. Mas, ainda assim, vou tentando compreender este mundo pouco ou nada racional.
As pessoas que vou conhecendo pedem-me o mail, tiram fotos ao meu lado com o telemovel de última geração e, quando atendem chamadas, exclamam Portugal no meio das conversas indecifráveis.
Confesso que tive medo quando saí da estação de Bishnupur. O sol ia baixo e teria de me desenrascar para chegar ao templo. Tentei regatear o taxi, que devia ser o único automóvel de toda a localidade. Assim foi. Buzinões atrás de buzinões e a multidão ia abrindo caminho. Sentia-me desconcertado por olhar para trás e ver apenas uma nuvem de poeira como agradecimento aos plebeus.
Parei em dois dos três famosos templos. Edifícios peculiares, cujos tijolos de terracota estavam decorados com motivos do quotidiano. Um dos templos tinha uma pequena pirâmide e, no toque com o chão, quatro camadas de arcadas, cada vez mais escuras à medida que se avançava para o interior.
De volta ao taxi, um aldeão mostrou-me uma factura. Eram 20 rúpias de estacionamento, na berma de um caminho te terra batida. Apesar do mísero valor, enchi-me de cólera. Era tempo de voltar.
Sempre me deliciei ao ver os vendedores que percorrem as dezenas de carruagens do comboio totalmente cobertos com as mercadorias mais incríveis. Cada um tem o seu grito, o timbre distintivo que acorda a multidão sonolenta. "Chai, chai", berra o vendedor de chá, segurando, numa mão, uma chaleira, e taças de terracota descartáveis na outra. Mas o som de pica-pau, a pancada seca na madeira pertence ao engraxador, que às vezes se dá ao luxo de também vender atacadores. Os outros vendedores vendem frutos secos e frescos, estejam eles no corredor ou nas janelas do comboio enquanto este está parado.
Pois ontem descobri um novo e incrível vendedor: o de ovos cozidos. Leva um cesto de verga forrado a papel de jornal. Quando vê um cliente, descasca o ovo, corta-o ao meio com uma lâmina negra e despeja aquilo que me pareceu ser picante, bem no meio.
Viajante solitário pela primeira vez, tudo me parece ainda mais vivido. O ambiente tem todos os ingredientes para ser hostil. A turba de gente oprime, principalmente se estiver a olhar para mim de alto a baixo, na condição de primeiro europeu avistado em vida. No entanto, consigo abstrair-me facilmente da estranheza. Escrevo, leio, por vezes até os desenho. Há sempre alguém que fala inglês, com quem consigo aprender alguma coisa. Perguntam-me o quão grande é a Europa, e eu sou forçado a admitir a sua pequenez. Eu, do meu lado, faço todo o tipo de perguntas. Porque é que a vaca, sendo sagrada, ajuda nos trabalhos de campo? Ninguém me sabe responder. Mas, ainda assim, vou tentando compreender este mundo pouco ou nada racional.
As pessoas que vou conhecendo pedem-me o mail, tiram fotos ao meu lado com o telemovel de última geração e, quando atendem chamadas, exclamam Portugal no meio das conversas indecifráveis.
Confesso que tive medo quando saí da estação de Bishnupur. O sol ia baixo e teria de me desenrascar para chegar ao templo. Tentei regatear o taxi, que devia ser o único automóvel de toda a localidade. Assim foi. Buzinões atrás de buzinões e a multidão ia abrindo caminho. Sentia-me desconcertado por olhar para trás e ver apenas uma nuvem de poeira como agradecimento aos plebeus.
Parei em dois dos três famosos templos. Edifícios peculiares, cujos tijolos de terracota estavam decorados com motivos do quotidiano. Um dos templos tinha uma pequena pirâmide e, no toque com o chão, quatro camadas de arcadas, cada vez mais escuras à medida que se avançava para o interior.
De volta ao taxi, um aldeão mostrou-me uma factura. Eram 20 rúpias de estacionamento, na berma de um caminho te terra batida. Apesar do mísero valor, enchi-me de cólera. Era tempo de voltar.
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