domingo, 6 de janeiro de 2013
A estranheza da familiaridade
Entro suavemente de novo em casa e abro a janela, deixo que os seus cheiros e a sua tactilidade me absorvam de novo e me preencham os espaços em branco. Pelo menos são assim os meus regressos à familiaridade do lar seja em Lisboa, Nottingham ou até, metaforicamente, neste pequeno blogue deixado temporariamente em hiato (e sugestivamente a nossa janela entreaberta). Será assim esta a nossa casa partilhada na ausência? Aquela que preenchemos e arejamos até sentirmos o conforto da presença mútua, mas que perde o seu propósito quando nos reencontramos fisicamente? Certo é que sempre tiveste razão em estimar este pequeno espaço da forma como o fizeste e, talvez por ele e por tantas outras coisas pelo meio, nunca me senti realmente afastada de ti.
Neste momento não é a novidade que me aconchega mas sim uma certa estranheza familiar em todas as pequenas coisas. A chaleira sempre pronta a aquecer o chá da meia noite, a cadeira de três pernas e a mala que agora serve de assento extra, o conforto da cama ampla com todos os meus livros de cabeceira prontamente alinhados, as canecas londrinas, a promessa do telhado, o clima britânico... Gostava no entanto de te poder descrever as minhas primeiras impressões ao aproximar-me de Nottingham, por mais elusivas que sejam. Ao fim de quatro horas de monótona viagem interrompidas somente pelo sono e pela leitura, dei-me ao luxo de olhar verdadeiramente pela janela. O céu estava carregado de um azul caprichoso e a antecipava os últimos braços de luz antes de cair na escuridão crepuscular das quatro e meia da tarde. Ocurreu-me que, neste clima britânico onde o cinzento e a luz fugaz de inverno é tão familiar, por qualquer oposição um céu limpo como aquele revela toda a nitidez e cor na paisagem que não encontramos em mais lugar nenhum. As árvores já estão completamente despidas mas as planícies verdes parecem vibrar com outra vida, e até as fileiras esquemáticas de casas idênticas de tijolo apresentam-se quase mais sólidas e reais.
Neste país de profundos contrastes, o manto verde domina a paisagem em todo o redor e apenas é sugestivamente recortado no horizonte por quatro largas e massivas chaminés industriais, rematadas no extremo por outra mais alta e delgada. O fumo que delas se eleva alonga-se e transfigura-se como mais uma nuvem no céu nesse fim de tarde e assim, a imagem que poderia parecer fragmentada, torna-se una. Há sem dúvida algo na Grã-Bretanha que fascina perpetuamente sem ser belo, e onde tudo parece convergir sem nunca nos pertencer.
A verdadeira novidade, porém, pertence-te a ti e a essa viagem que tens neste momento em mãos com a tua ida à Índia. Não há relato vago que possa fazer justiça às tuas impressões em primeira mão e ao contraste cultural que sentirás aí. Sei que a actualização dos relatos será difícil de gerir mas espero que este espaço sirva de novo como refúgio quando o tempo efectivo para nos encontrarmos ao mesmo tempo (ainda que virtualmente) falha. Um bejo da tua namorada cheia de inveja e chá britânico.
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