Apeteceu-me escrever-te e peço que não me culpes por isso. Possivelmente só terás tempo para ler depois de aterrares em Lisboa. Se assim for, respiro de alívio. O que se segue é demorado, e teria imenso gosto se lesses com a mesma calma com que escrevi.
Escrevo-te depois de voltar ao quarto, com a noite avançada. Não sei porque é que só me apetece realmente escrever por estas horas. Não sei se é por estar mais acordado que nunca, ou por ter sido despertado pelas repertório sensorial e emocional do dia. Simplesmente não te sei dizer, certo é que a noite, com a sua escuridão sábia, parece filtrar as ideias, e a luz só ilumina o que queremos. De resto, tal como a caverna platónica, a noite limita o campo visual, mas sem deixar de intrigar. É uma intriga que me reconforta no seu intimismo, quando as distâncias encolhem e as conversas se alongam. Até o tempo parece esticar na sua passividade letal.
Escrevo-te porque, pela primeira vez, sinto que o Erasmus acabou. Eu vi esse fim agora mesmo, quando vi a cidade irreconhecível pela neve murcha, cinzenta e ensopada. Foi finalmente interrompido aquele ciclo linear que antes só vira nos livros de contos infantis, do verde estival à neve infernal, passando pela incrível gama tonal do Outono.
O auge de todo o ciclo foi ver a cidade recém-caiada de branco, ao mesmo tempo que o café Ariman, com o melhor capuccino da cidade, emanava calor dos radiadores ao rubro, enquanto os meus desenhos se acumulavam nas paredes do meu "gabinete" como flocos de neve, e as tertúlias cinematográficas se sucediam a um ritmo de compasso. Mas agora parece que a minha presença na Suécia , por momentos, é apenas física. Vejo a neve desfazer-se como a festa que se acaba. Quase todo o meu pensamento vai para o que farei em Lisboa, ou numa possível ida à Índia, por a partilhar com a companhia sublime do meu pai em viagens. O sonho leva-me já às ruas sinuosas de Delhi, aos ghats do rio Ganges em Varanasi ou às ruínas de igrejas portuguesas nas praias de Goa. Se me considero profundo admirador da cultura escandinava, o que tenho lido e visto sobre a Índia também não me deixa de fascinar, com aquele fervilhar de culturas ancestrais que resistiu sempre a toda e qualquer tentativa de domínio ou colonização (e à beira, quem sabe, de destronar o próprio capitalismo como actual motor da globalização).
Tenho tido uma sucessão de acontecimentos que me tem puxado à realidade. É uma realidade que tento recusar e da qual me tento alhear por estar à beira do fim (não sei sequer se voltarei alguma vez a Lund, ou com que freqência aqui irei). Certo é que, para quem está a ver de fora, as coisas continuam, apesar de alguma dispersão de gente que já aproveita as férias para viajar para fora, razão pela qual já me despedi da maior parte da turma. Há pouco tive um café memorável no Grand Hotel, numa sala digna de um livro de Agatha Christie (Poirot ou Expresso do Oriente, escolha-se), com tectos dourados e lustros de cortar a respiração. Estive horas à conversa com o Niko, amigo finlandês, que no final parecia convencido a levar a namorada a Lisboa. Depois tive de correr para a sessão de cinema: Dead Man, de Jim Jamursh, com os Tozé. A história fez-me bastante impressão nesta fase, precisamente por retratar um William Blake (personagem que não é o poeta, aKa. Johnny Depp) que vai num comboio para o faroeste, quando o passageiro à sua frente lhe diz que vai para o inferno (ele já vai morto, portanto). Semi-despedi-me daquele impecável grupo que me ajudou a trazer estabilidade nestes quatro meses que agora acabam. Semi-despedi-me, porque prometi uma cerveja amanhã e talvez me juntar para uma discussão do Genesis.
Amanhã vou ver a discussão do doutoramento da Karen, amiga boliviana que fez uma tese sobre biocombustíveis a partir da biomassa. Também vai haver uma aula aberta de um dos mais carismáticos políticos da Colômbia, mas tenho trabalho da faculdade para acabar, papelada para tratar e uma bicicleta para (tentar) vender.
A cidade está irreconhecível e o vento marítimo está mais quente. Eu já mudei de sítio sem me aperceber, mas não deixo de ver em retrospectiva o nosso ano e algo de namoro não só juntos em mente, mas também no corpo e na pele. Do teu nariz e da tua testa ao alcance do meu lábio, dos teus olhos que fecham ao fechar dos meus ou das tuas curvas que as minhas mãos coreograficamente alcançam. Só quando te tenho ao lado consigo verter lágrimas que os teus cabelos enxugam, é só contigo que me sinto realmente em casa. Casa é onde tu estás, está dito. Mas acima de tudo, tenho-me apercebido da minha mesquinhez em não ver as nossas coisas pequenas. Sinto-me pequeno quando só vejo o vago e o improvável ou quando a minha mente se transforma em cronologia de facebook e só me ocorrem os últimos momentos.
Estar ao teu lado foi único e singular quando jantaste pato no café Alibi e vimos as pontes a lançarem-se no Danúbio. Mas também foi único no punt do rio Cam, debaixo da bidge of sights. Ou memso em Wollaton, na minha masmorra de Lund com velas, nos cais de madeira de Kastrup sobre o Báltico, ou mesmo no abraço do aeroporto. E, porque não dize-lo, em conversas memoráveis no skype. E tudo isto já no Erasmus. E antes, como foi o Verão? O carro multado durante o melhor chuveiro da minha vida, o osso da costeleta a sair do prato Vista Alegre num jantar romântico, o pôr-do-sol em Cacela, a briga pelo sofá insuflável na piscina da Rua da Moura Lídia, as conversas sobre a RTP2 estendido na rede do jardim a ver o mar na Madeira, as amoras que apanhámos na Gardunha, o amanhecer no cimo dos montes, a pedra lisa para contemplar a paisagem, o terraco com vista para as Donas, a piscina ecológica, o entardecer na barragem, o caiaque verde que nos levou à quinta abandonada, o vôo easyjet que ficou reservado na Praça Mayor mais remota de Espanha, a festa em Cascais, a manhã em Carcavelos a ler em voz alta na praia, o jantar no Moinho Dom Quixote e a noite no Cabo Raso, os concertos no São Carlos, a visita ao meu tio José Hermano, o jantar no Come Prima, a refeição manhosa McDonald's transformada num almoço memorável sobre os tubos da fábrica de electricidade de Belém, os serões no terraço do LxFactory, a janela que nos trancou lá fora, os trabalhos de faculdade que se acabam no último andar de uma fábrica, a posição Monsanto, o momento casa de banho LxFactory, a respectiva cantina, com o delicioso chouriço, as saídas no bairro e no adamastor, a escalada do portão do Alive, a praia de Algés (claro!), o militar 750, o café de gengibre no cantil quente, o moinho abandonado de Monsanto, a fuga dos jardins de Fronteira, a expusão do Parque das Necessidades, o açaí da Estrela, o Decadente I, o Decadente II, o Decadente III, a pizza de Algés, as tostas de queijo atiadas de Benfica, o Otto&Mezzo, os inacabados 500 dias de Summer, o Vodka sueco que o teu pai gentilmente me ofereceu, a evacuação da tua casa por taxi por questiúnculas de trabalhos de grupo, o descampado em Miraflores, as bruscettas no Capricciosa de Cascais, o Pois, a pastelaria Versailles fechada, o falecido Arte e Manha, as raquetadas no Marquês de Pombal, o pôr-do-sol no Noobai, a "cantina" perto da tua faculdade, as espetadas mal grelhadas na costa alentejana, as bruscettas de anchovas, o teu CD do David Guetta, o IndieLisboa, o concerto dos 3 pianos (irrepetível, infelizmente), o nascer do sol em Algés, os croissants Erik Kaiser que um dia me trouxeste, a pedra manuelina, a multa do autocarro, o lambrusco na margem sul, a mesa do indiano-italiano voltada para o Deus Televisão, a tasca de Benfica, os nervos das primeiras vezes, o jogging na marginal, o kebab do cais do sobré, a pizza no telhado de alfama, o medo de seres assaltada no Martim Moniz, o terraço do São Jorge, o brunch no Orpheu ou no Café da Graça, os gelados à borla no largo Camões, os momentos ousados nas traseiras do Príncipe Real, os soluços confessionais na rua da Rosa, andar pendurado no 28, a feira da Ladra, o último mergulho do ano na praia da Parede, o Filho da Mãe, as duas operações stop sem me mandarem parar, as Serviçais no El Corte Inglês, o pôr-do-sol sob a aresta do Padrão dos Descobrimentos, as despedidas nas plataformas do metro, os jardins da Gulbenkian, o Torel e o seu elevador, a Casa da Galiza, o Experimenta Design, a tentativa de entrar no café Tati, o bolo de bolacha maria na Baixa, o cachorro quente no Terreiro do Paço, o CCB ao fim da tarde, a minha cama e a tua cama,...
Enfim, tive de ser privado pela distância para me aperceber, de forma mais intensa, o que significas para mim e que aquilo que partilhamos é enorme. Tão grande que nem sei como cabe na minha vida (muito menos num ano e algo).
Gostava de te escrever um balanço do Erasmus. Depois de aterrar penso nisso. Boa noite.
(na imagem, Bibi Anderson e Victor Sjöström em Smultronstället, de Ingmar Bergman, ambos fazendo uma pausa na viagem de carro pela Suécia. um velho professor foi a Lund receber uma homenagem e a sua parecença com o meu falecido avô é notável)..

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