quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Dos espaços em branco
Devo dizer-te que tenho pensado várias vezes sobre o peso das tuas últimas palavras neste blog e na forma como me emocionaram, bem como nos acontecimentos das últimas semanas praticamente ao ponto de me impedirem de responder à altura. Confesso-te que na minha cabeça imaginei várias formas de te escrever de volta ou simplesmente de te surpreender com algo, apenas para constatar que os dias se acumulavam e que este nosso pequeno espaço partilhado permanecia em branco de forma infame da minha parte. É certo que mantivemos o nosso contacto e que várias coisas aconteceram deste lado da barricada entretanto, sendo os meus últimos dias por Nottingham um atestado dessa pequena esquizofrenia contida, contudo nada disto me basta realmente como justificação perante ti.
Quero que saibas que me sinto cheia, completa ao teu lado. Verdadeiramente una apenas quando estou contigo e constantemente admirada pela forma como te superas no dia a dia. Como te excedes não só nas tuas ambições (que apenas são desmedidas para quem não conhece aquilo que és capaz) mas também naquilo que entregas aos outros e ao universo que te rodeia, seja a nível emocional, intelectual ou até mesmo espiritual... seja no interesse crítico que tens em mudar o mundo à tua volta, pela fé trabalhada, pelas escapadelas ousadas de arco e flecha ou golfe urbano em telhados, pela tua dedicação à família, pela tua “mens sana in corpore sano", pelo teu talento que se revela melhor onde te dedicas de corpo e alma. Cada vez que penso que não podes entregar-te ou amar mais, tu provas o contrário... e sinto-me sempre inacreditavelmente privilegiada por partilhares uma parte especial de tudo isso comigo. Sabes que não digo nada disto de modo leviano mas terás de me desculpar a continência verbal prolongada porque talvez me esqueço de te dizer mais vezes aquilo que vejo em ti todos os dias.
Hoje foi um dia curiosamente pacato no meio das suas burocracias, apenas porque pude mostrar Nottingham calmamente à Madalena e deixá-la a vaguear enquanto eu tratava dos meus afazeres. Certo é que parámos para almoçar num restaurante italiano com um menu partilhado de nos encher a barriga e, no meio deste cenário, não só disfrutámos de um belo serão gastronómico como uma das conversas mais interessantes dos últimos tempos em termos de reflexão introspectiva mútua. A conversa tanto derivou para os traços de família e para as nossas diferenças e semelhanças partilhadas como inevitavelmente sobre os nossos namoros, até chegarmos à singular conclusão que tínhamos tido “discussões” semelhantes e que (num pequeno microcosmos intimista) as opiniões dela eram as tuas traduzidas e que as minhas correspondiam às do António. Talvez seja estranho pôr a coisa deste modo, mas de repente comecei a ouvir a minha irmã quase como se te estivesse a ouvir a ti, por mais longínqua que esta parecença de carácter esteja à primeira vista. É engraçado, gostei genuinamente de falar com ela sem pressas ao fim de todo este tempo, mas principalmente voltei a rever com outros olhos aquilo que achava que já tinha avaliado de todos os prismas.
Não se trata de falta de entrega ou de amor e não quero que o calor das tuas acções e emoções sejam alguma vez mitigados pela minha forma de ser. Trata-se de te tratar da forma excepcional que tu me tratas e que como verdadeiramente és. Julgo que não se trata de eu ter errado em algo particular. Trata-se de quebrar as expectativas e de te surpreender como tu fazes comigo, contigo, com tudo o que te rodeia. Exerces uma importância fundamental para mim que eu não quero da por garantida mas preciso também que relativizes por vezes um pouco as pequenas coisas, não por não terem importância, mas porque raramente são demonstrativas do que realmente sinto por ti.
Sei que contexto da ausência não ajuda porém sinto que, independentemente da turbulência pelo meio, crescemos. E sabe deus como falta pouco para o reencontro.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
post-scriptum
Sinto-me feliz por estares a aproveitar Nottingham ao máximo nestes últimos dias. Tens sido, pelo menos para mim, a prova inspiradora de que não é preciso ir-se propriamente à Escócia para arranjar programas aliciantes - quando eles abundam dentro da urbe. Para além de que terás mais que tempo para ir ao resto da ilha; só gostaria de um dia poder ser eu a ajudar-te nessa tarefa árdua.
Aproveita ao máximo os teus últimos tempos, saindo aos sítios com o melhor vinho da cidade (porque não havia disso em Lund, por exemplo), com os grupos mais interessantes. Nos momentos de maior introspecção, não deixes de desenhar a fauna local que atravessa a passadeira, espera o autocarro ou acampa no jardim durante as tardes de sol. Estou contente por ti e tenho a certeza que a tua irmã vai adorar a recepção e rematar a estadia com muito estilo. Beijo saudoso.
(Chatsworth na imagem)
de admiração
É verdade que me inspiras, na forma como concentras tantas virtudes que, para mim, ainda são mais valiosas. E que gosto da tua sensual discreção, da tua simplicidade e modéstia nos gostos e nos gestos, na moderação das tuas palavras belas, pausadas e pautadas de harmonia. Pelo menos para mim, és um equilíbrio que diria impossível entre essa moderação e a certeza de convicções (equilíbrio esse onde eu claramente peco). Gosto de ti porque gosto de ti, porque sinto que despertas o melhor que há em mim de uma forma que eu só espero corresponder, fazendo-te sentir inspirada nas tuas criações - como as que ontem à noite me maravilharam (e outros projectos que certamente aparecerão). O teu swag na presença, a voz doce e quente, o riso trocista e os cabelos ao sol.
Podia alongar-me nas coisas que, em ti, me despertam, aspectos mais ou menos racionais, mas sinto que a descrição que fizesse de ti ficaria sempre aquém daquilo que és. Porque, talvez com o tempo e com tudo o que vivemos juntos, ao ficarmos pele com pele, com os chakras alinhados e uma bússola no pensamento, o mundo das palavras, ditas ou escritas, perde qualquer forma de protagonismo.
Quero que te sintas bem. Quero que não sintas que entre nós há um fosso. O fosso aparece com a falta de diálogo, com o medo de confrontar. O senhor Monet achou por bem encher o fosso do seu jardim com nenúfares e borboletas! E eu sinto que nos complementamos a ponto de nos excedermos. Pelo menos falo por mim. Tu tens (e dás-me) a moderação e a serenidade que me falta. Incitas-me a aproveitar o dia, é certo, sem ter aqueles picos alternados de modorra e stress, quase bipolares, que eu antes tinha, e dás-me uma segurança na existência só comparável à religião. Da mesma maneira que tu me fazes sentir que dás mais de ti ao mundo (de forma saudável e não alienada) comigo ao lado.
O que eu disse há três dias também me desconcertou. Disse algumas aberrações que te terão ofendido legitimamente e das quais me arrependo, como o questionar das nossas conversas rotineiras. Acima de tudo, o que disse foi o reflexo de tempos conturbados recentes, aliados a uma forma de tédio que surge quando quase toda a gente está em exames, e que dá espaço a pensamentos obscuros. Não acho, de todo, que o Erasmus tenha sido inútil a gerir a distância, nem que eu me tenha sentido infeliz ao longo do tempo. Pelo contrário, sempre me deste força. Também não estranhes o estalar da angústia a duas semanas do teu regresso, porque, como já te disse, as circunstâncias agora são outras. Eu afeiçoei-me à tua forma de comunicar antes, e a adaptação mútua é constante. Quero que confies na minha forma de me exprimir altamente sui generis, nas minhas emoções. Deduzo, da conversa que tivemos, que tenho um aspecto a mudar: ganhar sangue frio e discernimento para te preparar quando eu não estou bem. Esse tem sido o meu maior erro, não é intencional, mas tudo quero fazer para o mudar.
De resto, acho que aquilo que temos de fazer é não pensar. É sermos nós mesmos. Porque tive a catarse exagerada (comigo é difícil ser de outra maneira, infelizmente) e porque sinto cada vez mais que existe algo, para além das pequenas coisas, que teima em não esmorecer.
O que eu disse há três dias também me desconcertou. Disse algumas aberrações que te terão ofendido legitimamente e das quais me arrependo, como o questionar das nossas conversas rotineiras. Acima de tudo, o que disse foi o reflexo de tempos conturbados recentes, aliados a uma forma de tédio que surge quando quase toda a gente está em exames, e que dá espaço a pensamentos obscuros. Não acho, de todo, que o Erasmus tenha sido inútil a gerir a distância, nem que eu me tenha sentido infeliz ao longo do tempo. Pelo contrário, sempre me deste força. Também não estranhes o estalar da angústia a duas semanas do teu regresso, porque, como já te disse, as circunstâncias agora são outras. Eu afeiçoei-me à tua forma de comunicar antes, e a adaptação mútua é constante. Quero que confies na minha forma de me exprimir altamente sui generis, nas minhas emoções. Deduzo, da conversa que tivemos, que tenho um aspecto a mudar: ganhar sangue frio e discernimento para te preparar quando eu não estou bem. Esse tem sido o meu maior erro, não é intencional, mas tudo quero fazer para o mudar.
De resto, acho que aquilo que temos de fazer é não pensar. É sermos nós mesmos. Porque tive a catarse exagerada (comigo é difícil ser de outra maneira, infelizmente) e porque sinto cada vez mais que existe algo, para além das pequenas coisas, que teima em não esmorecer.
Eu amo-te.
O resto vem por acréscimo.
O resto vem por acréscimo.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
today my head is under construction
Agora que paro finalmente para me sentar e dar colheradas silenciosas na sopa quente, num daqueles dias que parecem não ter tido fim, sinto de facto que a minha cabeça está em construção. Um ligeiro latejar que acalma com a comida e a luz suave, apazigua as 12h horas ininterruptas de burocracias e ainda um bocado de desenho de modelo vivo para desintoxicar ao final do dia. O frio na rua no entanto é brutal e, acaso houve algum sol radiante, foi mesmo aquele que te falei de manhã e que me acompanhou à saída de casa, onde o gelo duro dos passeios deu-me a certeza que derraparia mais cedo ou mais tarde (pelo menos a queda ficou adiada para outro dia). De resto foi o mesmo frio e o mesmo tempo acinzentado mal cheguei ao centro da cidade e, agora que penso nisso, talvez estes tenham acompanhado o meu estado de afazeres ao longo do dia. Aquela breve satisfação inocente de caminhar nas ruas cobertas e neve e haver algum céu limpo, seguidas das horas a andar de departamento em departamento sem parar ou a mandar emails extensivos sob a coberta da biblioteca. Ainda que agora espere respostas, pelo menos sinto que hoje fiz tudo o que humanamente podia fazer ao meu alcance para despachar os empecilhos adiados: a possibilidade de alterar as datas de regresso, as ginásticas para conseguir as equivalências necessárias, e até a batalhada logística das cadeiras que supostamente ficarão agora repostas em 48h. No meio de todo este caos só a tua voz serena de manhã para me dar algum ânimo e energia.
De resto aproveito para exibir um dos meus ilustradores favoritos do momento, andrew archer.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Sinapses
Na condição de nómada, não restava pedra sobre pedra no meu quarto. Não tinha sido só a minha irmã a usar o espaço para ouvir jazz nos serões de estudo, com o meu aval. Eram também as marcas das gatas, que usam a gaveta das meias para se abrigarem dos temporais que aconteceram dentro e fora de casa, durante toda a ausência.
No meio de tanta destruição só faltava a avó entrar pelas portas a dentro para "melhorar" o meu aposento. Não foi só para pendurar um quadro seu na parede, ou mudar de sítio e realçar as aguarelas do Tio João, sob o pretexto de "és um arquitecto, precisas de te inspirar". Do alto dos seus 91 anos e a personalidade alterada não me sinto capaz de repreender algo que é feito com a melhor das intenções. Mas que devia, devia!
Com o pó e o desleixo acumulado sobre os mais variados pertences, arrumar o quarto tem-se revelado uma experiência quase tão marcante como as andanças recentes. Uma viagem à Índia ou à Suécia revelam-me o mundo, fascinante na sua diversidade e nas pessoas que conheci; no repertório sensorial que me surpreendeu mesmo nos momentos mais monótonos. Mas o confronto com as quatro paredes que ocupei desde os seis anos é bastante revelador. Revisitei objectos que, neste momento, são as únicas provas físicas de épocas passadas, Refiro-me às moedas antigas, aos diplomas de piano, às prendas dos amigos, à roupa adolescente renegada, aos cancioneiros perdidos. Muitos objectos têm uma história, um significado, e são o único elo que me liga a um certo passado. Coisas há, como os lenços de escuteiro, que não têm qualquer valor numa prateleira poeirenta e recôndita, porém, a riqueza emocional daquela fase vale por si. Não posso admitir que foi uma experiência verdadeira pelo escasso e insignificante legado material, mas sim, pela marca indelével que em mim deixou.
Será desconcertante supor que tudo o que resta são as sinapses da memória e que não há um significado maior.
De todas as cogitações que me ocorreram durante a arrumação, a mais terrível foi a de que tenho coisas a mais. A quantidade de tralha que acumulei ao longo de anos é incrível, principalmente tendo em conta a inutilidade de grande parte das coisas. Coisas por vezes duplicadas ou triplicadas na camada de ignorância (ou da memória curta). Mas, pior, sinto falta de coragem para deitar fora muitas dessas coisas, para não as desperdiçar. Podia ter o mesmo conforto com uma ínfima parte daquilo que existe.
Parte da acumulação, da obesidade material, parece-me estar ligada com a insegurança e uma necessidade inconsciente de insuflar o ego. Sou incapaz de usar roupa que escolhi há cinco anos. Com que direito?
Sonho com o dia em que me satisfarei com aquilo que carregar numa mochila, e com toda a liberdade que se perde com a posse. E com as tuas duas cartas escritas que pude reler. Identifico-me contigo e com o apelo à ataraxia com que remataste ambas as cartas. A tua escrita é fabulosa e enche-me as medidas, na tua forma honesta e singela com que te expressas.
Com o pó e o desleixo acumulado sobre os mais variados pertences, arrumar o quarto tem-se revelado uma experiência quase tão marcante como as andanças recentes. Uma viagem à Índia ou à Suécia revelam-me o mundo, fascinante na sua diversidade e nas pessoas que conheci; no repertório sensorial que me surpreendeu mesmo nos momentos mais monótonos. Mas o confronto com as quatro paredes que ocupei desde os seis anos é bastante revelador. Revisitei objectos que, neste momento, são as únicas provas físicas de épocas passadas, Refiro-me às moedas antigas, aos diplomas de piano, às prendas dos amigos, à roupa adolescente renegada, aos cancioneiros perdidos. Muitos objectos têm uma história, um significado, e são o único elo que me liga a um certo passado. Coisas há, como os lenços de escuteiro, que não têm qualquer valor numa prateleira poeirenta e recôndita, porém, a riqueza emocional daquela fase vale por si. Não posso admitir que foi uma experiência verdadeira pelo escasso e insignificante legado material, mas sim, pela marca indelével que em mim deixou.
Será desconcertante supor que tudo o que resta são as sinapses da memória e que não há um significado maior.
De todas as cogitações que me ocorreram durante a arrumação, a mais terrível foi a de que tenho coisas a mais. A quantidade de tralha que acumulei ao longo de anos é incrível, principalmente tendo em conta a inutilidade de grande parte das coisas. Coisas por vezes duplicadas ou triplicadas na camada de ignorância (ou da memória curta). Mas, pior, sinto falta de coragem para deitar fora muitas dessas coisas, para não as desperdiçar. Podia ter o mesmo conforto com uma ínfima parte daquilo que existe.
Parte da acumulação, da obesidade material, parece-me estar ligada com a insegurança e uma necessidade inconsciente de insuflar o ego. Sou incapaz de usar roupa que escolhi há cinco anos. Com que direito?
Sonho com o dia em que me satisfarei com aquilo que carregar numa mochila, e com toda a liberdade que se perde com a posse. E com as tuas duas cartas escritas que pude reler. Identifico-me contigo e com o apelo à ataraxia com que remataste ambas as cartas. A tua escrita é fabulosa e enche-me as medidas, na tua forma honesta e singela com que te expressas.
(na imagem, jovens suecos que se deixaram fotografar junto a todos os seus pertences, nos respectivos quartos. trabalho de Sannah Kvist)
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