sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

até que a neve nos separe


A segunda grande invasão de neve em Nottigham nesse início de 2013, segundo reza a lenda, deu-se com o avançar da tarde de forma subtil mas incansável. O vento apareceu como o convidado de excelência para este dia pelo que, como o aviso metereológico para hoje previa, os -3ºC sentem-se como -9ºC. I impress you not, bem sei, pelo menos perante um interlocutor difícil como tu que já teve a barba congelada com -13ºC no inverno escandinavo e que já suportou as noites agrestes no interior de comboios indianos com meio século. Porém dá-me o desconto da novidade a esta velha alma mediterrânica perante a neve ininterrupta do próximo fim de semana que tem varrido a Grã-Bretanha e em particular o sul do País de Gales. Será aliás curioso notar como corre a viagem amanhã até Bath e se não é interrompida se o tempo piorar (nem como será acordar para lá estar no ponto de encontro para a partida pouco clemente às 7h00 da manhã..). Até o malfadado casaco que a minha rica mãe fez questão que levasse e usasse saiu (literalmente) do armário para cumprir o seu verdadeiro desígnio com este tempo enquanto seguia para o meu tutorial do dia (a internet, a guerra fria, o cinema de andy warhol e até george orwell). Por agora hiberno na casa vazia com o calor da caneca de chá nas minhas mãos, o pequeno candeeiro que agora usamos como conforto caseiro acrescido e o caos da neve lá fora.

É notável, no entanto, como deste interior o cenário parece de uma serenidade implacável.

domingo, 13 de janeiro de 2013

diário de janeiro




O céu que agora cai, pálido e distante, é certamente um fraco substituto da luz gloriosa com que acordei esta manhã no meu quarto e que te queria descrever desde início. É uma luz carregada de promessas, mais ou menos vagas, para o dia e que transporta consigo um aconchego enganador perante as temperaturas mínimas lá fora. O manto branco de gelo lá fora surpreende-me, cobrindo as vastas áreas proscritas pela sombra, os telhados das casas e até o topo do carro estacionado em frente à nossa porta. É um contraste belo principalmente do abrigo quente e preguiçoso da casa. O dia de ontem porém, sendo semelhante em temperaturas à excepção do gelo nocturno, serviu-me para caminhar sozinha até à cidade e reconciliar-me com esse frio, com o inverno, com o regresso à grã-bretanha e, em última análise suponho, comigo mesma.

Noto que o mesmo caminho ao longo do parque que já repeti inúmeras vezes (nomeadamente contigo) tem sido um pequeno calendário visual da minha estadia cá e de espanto perante todos esses meses que já passaram. Já não existem castanhas caídas no chão ou a explosão de cor pródiga do outono; agora, olhando exactamente do mesmo lugar, a única ligeira variação de cores é entre os tons de castanhos das árvores despidas e da luz mais ou menos benevolente. Este limbo de tempo entre a minha chegada e partida breve é algo sobre o qual nem me tinha dado devidamente conta até há bem pouco tempo, quando falava com a francesa Marie sobre o seu Natal e passagem de ano (passados curiosamente no México com a família, algo tanto mais ingrato já que esse dia parecia sair de um conto negro de Dickens, coberto de nevoeiro espesso e fracas luzes de manhã à noite). Enquanto falávamos sobre as curtas três semanas que tínhamos para este projecto, só então tomei plena consciência que essas semanas eram verdadeiramente já só duas e que o retornar à familiaridade terá de ser quebrado rapidamente por outra mudança efectiva e por outra familiaridade. Que este quarto onde me sento agora e que já ocupei com a minha presença (desde os livros de cabeceira, roupa no chão, aos jornais colhidos e empilhados) não é mais do que passageiro e que possivelmente dentro de um mês estará despido de qualquer vestígio meu. É algo profundamente estranho que ainda não consegui agarrar plenamente na consciência, no entanto, as tuas palavras ponderadas na despedida de Lund não deixam de ecoar no meu espírito - com a única diferença que tu não tiveste de voltar. Eu fui e reencontrei-te(me) em Lisboa durante quase um mês, ao fim do qual tive de regressar para continuar um ciclo que também ele se fecha. Metade das pessoas também já foi efectivamente, o que aumenta essa disparidade.

Enfim, apesar do frio, os dias têm sido de facto generosos entre compor o meu espaço e voltar a estar embrenhada no que gosto como desenhar (eu e o Henrique temos conseguido prolongar as sessões de desenho depois do jantar com Miles Davis a tocar na cozinha). Talvez por isso mesmo esta existência em soluço me faça mais confusão, e quem sabe, até os soluços na nossa forma de comunicar nestes dias e dos quais não tens culpa. Tento esquivar-me a este sentimento como posso e até já fiz finalmente da minha parede o repertório de inspiração visual que precisarei nos próximos dias e que vês na imagem em cima. Quanto a ti, sei que provavelmente só lerás isto quando já estiveres em Lisboa, mas espero que espremas o máximo que essa viagem tem para te oferecer nos últimos dias qual Gonçalo Cadilhe, e que o regresso também te dê o apaziguamento que precisas.


sábado, 12 de janeiro de 2013

Sobrevivi a Bishnupur (e a dois mil e doze)

Foi um dia peculiar. Entrei no comboio mais lotado que alguma vez vi. Não sei se são os bancos que esticam ou as pessoas que encolhem, certo é que há sempre lugar para mais uma horde que, aqui e ali, vai recheando as paredes de ferro meciço. Trudo é tosco, cru, parece que vai explodir a qualquer momento. Mas é no limite que a vida vai correndo por estas paragens.

Sempre me deliciei ao ver os vendedores que percorrem as dezenas de carruagens do comboio totalmente cobertos com as mercadorias mais incríveis. Cada um tem o seu grito, o timbre distintivo que acorda a multidão sonolenta. "Chai, chai", berra o vendedor de chá, segurando, numa mão, uma chaleira, e taças de terracota descartáveis na outra. Mas o som de pica-pau, a pancada seca na madeira pertence ao engraxador, que às vezes se dá ao luxo de também vender atacadores. Os outros vendedores vendem frutos secos e frescos, estejam eles no corredor ou nas janelas do comboio enquanto este está parado.

Pois ontem descobri um novo e incrível vendedor: o de ovos cozidos. Leva um cesto de verga forrado a papel de jornal. Quando vê um cliente, descasca o ovo, corta-o ao meio com uma lâmina negra e despeja aquilo que me pareceu ser picante, bem no meio.

Viajante solitário pela primeira vez, tudo me parece ainda mais vivido. O ambiente tem todos os ingredientes para ser hostil. A turba de gente oprime, principalmente se estiver a olhar para mim de alto a baixo, na condição de primeiro europeu avistado em vida. No entanto, consigo abstrair-me facilmente da estranheza. Escrevo, leio, por vezes até os desenho. Há sempre alguém que fala inglês, com quem consigo aprender alguma coisa. Perguntam-me o quão grande é a Europa, e eu sou forçado a admitir a sua pequenez. Eu, do meu lado, faço todo o tipo de perguntas. Porque é que a vaca, sendo sagrada, ajuda nos trabalhos de campo? Ninguém me sabe responder. Mas, ainda assim, vou tentando compreender este mundo pouco ou nada racional.

As pessoas que vou conhecendo pedem-me o mail, tiram fotos ao meu lado com o telemovel de última geração e, quando atendem chamadas, exclamam Portugal no meio das conversas indecifráveis.

Confesso que tive medo quando saí da estação de Bishnupur. O sol ia baixo e teria de me desenrascar para chegar ao templo. Tentei regatear o taxi, que devia ser o único automóvel de toda a localidade. Assim foi. Buzinões atrás de buzinões e a multidão ia abrindo caminho. Sentia-me desconcertado por olhar para trás e ver apenas uma nuvem de poeira como agradecimento aos plebeus.

Parei em dois dos três famosos templos. Edifícios peculiares, cujos tijolos de terracota estavam decorados com motivos do quotidiano. Um dos templos tinha uma pequena pirâmide e, no toque com o chão, quatro camadas de arcadas, cada vez mais escuras à medida que se avançava para o interior.

De volta ao taxi, um aldeão mostrou-me uma factura. Eram 20 rúpias de estacionamento, na berma de um caminho te terra batida. Apesar do mísero valor, enchi-me de cólera. Era tempo de voltar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Bra(h)mido dos Ghats

Não sei o que fiz para chegar a este sítio tão improvável. Senão repara: saltei da (in)tranquilidade da eterna bruma do Ganges, esse rio sagrado, para as casas semeadas na selva de que ontem te falei.

Kharakpur pode ter sido uma daquelas ruínas bengalis cheias de Moglis que inspiraram o senhor Rudyard Kipling a escrever The Jungle Book em Calcutá, a cidade onde viveu. O mato conquistou as linhas de comboio e os descomunais hangares ferroviários de outrora. Depois, mais longe do centro, a o verde da floresta oculta uma outra floresta humana, composta de lagos de esgoto, campos de críquete, pavilhões da faculdade e bairros precários onde tudo se vende.

Finalmente conseguimos ter um dia de descanso, depois de noites quase sem dormir em comboios de ferro maciço, dos quais os locais se apropriam de todas as formas possíveis e imaginárias. Ainda ontem, vindos do caos de Calcutá, um polícia acompanhou-nos só para nos levar até à plataforma certa, tal era a multidão naquela estação ciclópica. O comboio era um dos locais: portas escancaradas durante a viagem e sete pessoas sentadas conde cabem cinco. Várias vezes nos pediram para encolhermos, porém, formou-se ali uma cumplicidade inesperada. As pessoas diziam-nos atenciosamente quanto tempo faltava para a nossa estação. Pessoas simples e afáveis. Nunca neste país me senti em perigo, porém, raras são as pessoas que falam estrangeiro que não seja Hindi. Quem sabe, pergunta num iglês escasso, where are you from. Perante a resposta, dizem não saber onde é Portugal.

Hoje decidimos ir às compras, aproveitando os preços pornográficos deste país. Um senhor viu-nos na rua, meteu conversa, disse ser cristão e colou-se a nós. Que nos ajudaria nas compras, que apenas queria ajudar. Era idoso, enxota-lo seria indelicado, e foi ficando. Levou-nos ao bazar - um remendo de terra batida, onde as motas passam a uma velocidade estonteante. As lojas estavam quase todas fechadas, porque quinta-feira é dia santo. Não contentes, fomos a um centro comercial. Arames espetados no remate da fachada inacabada, certo é que nele havia lojas com coisas da levi's e marcas afins. Obviamente não fui às marcas. Comprei, entre outras coisas, uma túnica local perfeitamente hipsterizável (pudera, até agora, a minha única necessidade comsumista nestas terras tinha sido a compra de dois livros sobre o budismo).

Levar as compras não estava fácil e por isso contratámos dois riquexós de pedais. Eu fui a sós com o taxista e a bagagem e estava a ficar entediado com as fintas que o riquexó fazia às pessoas, vacas, bicicletas, motas, autocarros e camiões que apareciam de todos os lados, sem qualquer sentido de trânsito predefinido. Pois bem, mal entrámos no campus da faculdade e a estrada alargou e acalmou, pedi ao taxista para saltar para o meu banco enquando eu pedalava. Devo dizer que, para além de proletário, o momento foi de emoção. Ultrapassei num instante o riquexó do meu pai e do pendura indiano, que olhou para mim, chocado com aquela afronta às castas.

Consta que o meu pai lhe perguntou se não lhe fazia confusão haver por cá tantas pessoas que são usadas como animais de carga e que apenas vivem para transportar outros seres humanos. O senhor indiano respondeu. no alto do seu cristianismo, "Yeah, I know what you mean! Anyway you can't turn a donkey into a horse."

E o sol púrpura escondia-se entre a folhagem.

domingo, 6 de janeiro de 2013

A estranheza da familiaridade


Entro suavemente de novo em casa e abro a janela, deixo que os seus cheiros e a sua tactilidade me absorvam de novo e me preencham os espaços em branco. Pelo menos são assim os meus regressos à familiaridade do lar seja em Lisboa, Nottingham ou até, metaforicamente, neste pequeno blogue deixado temporariamente em hiato (e sugestivamente a nossa janela entreaberta). Será assim esta a nossa casa partilhada na ausência? Aquela que preenchemos e arejamos até sentirmos o conforto da presença mútua, mas que perde o seu propósito quando nos reencontramos fisicamente? Certo é que sempre tiveste razão em estimar este pequeno espaço da forma como o fizeste e, talvez por ele e por tantas outras coisas pelo meio, nunca me senti realmente afastada de ti.

Neste momento não é a novidade que me aconchega mas sim uma certa estranheza familiar em todas as pequenas coisas. A chaleira sempre pronta a aquecer o chá da meia noite, a cadeira de três pernas e a mala que agora serve de assento extra, o conforto da cama ampla com todos os meus livros de cabeceira prontamente alinhados, as canecas londrinas, a promessa do telhado, o clima britânico... Gostava no entanto de te poder descrever as minhas primeiras impressões ao aproximar-me de Nottingham, por mais elusivas que sejam. Ao fim de quatro horas de monótona viagem interrompidas somente pelo sono e pela leitura, dei-me ao luxo de olhar verdadeiramente pela janela. O céu estava carregado de um azul caprichoso e a antecipava os últimos braços de luz antes de cair na escuridão crepuscular das quatro e meia da tarde. Ocurreu-me que, neste clima britânico onde o cinzento e a luz fugaz de inverno é tão familiar, por qualquer oposição um céu limpo como aquele revela toda a nitidez e cor na paisagem que não encontramos em mais lugar nenhum. As árvores já estão completamente despidas mas as planícies verdes parecem vibrar com outra vida, e até as fileiras esquemáticas de casas idênticas de tijolo apresentam-se quase mais sólidas e reais.

Neste país de profundos contrastes, o manto verde domina a paisagem em todo o redor e apenas é sugestivamente recortado no horizonte por quatro largas e massivas chaminés industriais, rematadas no extremo por outra mais alta e delgada. O fumo que delas se eleva alonga-se e transfigura-se como mais uma nuvem no céu nesse fim de tarde e assim, a imagem que poderia parecer fragmentada, torna-se una. Há sem dúvida algo na Grã-Bretanha que fascina perpetuamente sem ser belo, e onde tudo parece convergir sem nunca nos pertencer.

A verdadeira novidade, porém, pertence-te a ti e a essa viagem que tens neste momento em mãos com a tua ida à Índia. Não há relato vago que possa fazer justiça às tuas impressões em primeira mão e ao contraste cultural que sentirás aí. Sei que a actualização dos relatos será difícil de gerir mas espero que este espaço sirva de novo como refúgio quando o tempo efectivo para nos encontrarmos ao mesmo tempo (ainda que virtualmente) falha. Um bejo da tua namorada cheia de inveja e chá britânico.