quarta-feira, 7 de novembro de 2012

pensamento recorrente e desconcertante do dia.


tive ontem de madrugada um sonho enorme, daqueles que se parecem estender no tempo e no espaço com a a nitidez e precisão de cada cenário aumentada em glorioso detalhe, por mais insólito que seja o enredo. contudo a única coisa que me ficou verdadeiramente na memória, para além de uma sucessão de imagens vagas, foi que esta personagem com uma máscara de guy fawkes vinha atrás de mim e às tantas incentivou-me a fazer uns moches, como se fosse a coisa mais divertida e evidente do mundo - o que se tornou apenas ligeiramente desconcertante porque em vez de um moche era simplesmente eu a atirar-me sozinha para cima do colchão de uma cama (enquanto sentia o pequeno pulinho de reverbração contra mim e lá ficava estendida), e depois porque a criatura me cobrou depois mais £10 por esse acto sob o meu olhar atónito. descobri no fim quase por acaso, sugerido por uma suspeita mecha de cabelo loiro por detrás da máscara, que esta pessoa se revelava na verdade como uma das raparigas de erasmus daqui embora pouco me dê com ela e muito menos consiga ver algum motivo discernível para esta atitude. fiquei na dúvida se não passava tudo de uma partida, uma performance contemporânea, porém o sonho acabou pouco depois.

no entanto, o mais pungente em toda esta história é que o meu subconsciente continuou-me a atormentar-me com esta falsa memória em pano de fundo e agora não consigo encararar a rapariga sem pensar porque é que ela estava mascarada e a cobrar-me as £10

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

momento corado

O teu texto foi verdadeiramente tocante; sinto-me capaz de te mandar flores por correio neste momento (ou uma caixinha de música que fuja ao cliché do Lago dos Cisnes). Diria que escreves com a lábia de quem poderia escrever para uma Blitz (ou uma Rolling Stone revista, melhorada e imaginária). Tu consegues usar a memória das letras e dos sons com uma subtileza que me inspira e fazes as minhas escolhas encaixarem nos momentos e nas recordacões que partilhamos. Esse condão é teu e só teu.

Repara como eu seria incapaz de te associar a um som, porque para mim fazes parte da escala pentatónica e do teclado do piano. Quando penso numa letra, porém, já imagino Just the Way you Are, de Billy Joel, ou You are the Sunshine of my Life, de Stevie Wonder, e pouco mais. Talvez por preguica, desculpa. Há palavras que chegam para exprimir emocões, sem necessariamente recorrermos a antologias poéticas, aos problemas existenciais do Pessoa ortónimo vs. Ofélia, aos poemas sórdidos do Al Berto (ou mesmo à versão softcorezinha do Bocage).

Fundamental é o prazer que tenho em mostrar-te matéria prima e ouvir as tuas escolhas; das surpreendentes pecas do Sassetti e das bandas e artistas que me ensinas. Podia enumerar uma sacra lista (Wilco, Raphael Saddiq, Voicst, vou-te excluir do meu orkute,...) mas a sua extensão tornar-me-ia herético, mesmo em Terras da Blogosfera.

Espero que não te sintas desamparada perante tão gloriosas recordacões do secundário e não te falte música e júbilo capazes de te manter gloriosa, "feliz, descomplexada e serena". Como aliás tens sido.



Super Sessions Full Album


No início o Libertango




A nossa singela lista de referências e trocas musicais, acumulada há mais de um ano, é das coisas que mais prezo e aonde ainda dou por mim a recorrer sigilosamente quando preciso de um determinado estado de espírito, ainda que muitas vezes não saiba como lhe fazer verdadeiramente justiça. É algo entre a estima intimista e a pura admiração, confesso. Esta tornou-se para mim quase como um pequeno repertório onde vejo depositada a tua curadoria, o teu bom gosto e tua cultura musical mas também a memória de algo mais. Na verdade o que é que une Led Zepellin e Ryuichi Sakamoto Trio, ou Snarky Puppy’s e Jethro Tull?  O meu Cullum diria “and the difference is you”.

A narrativa de uma música ou de um conjunto delas é algo subtil, criado a partir de uma letra profética compreendida num determinado momento, por um acorde transcendental ou pela recordação de um período muito específico, com tudo o que este acarreta. É talvez por esse motivo que a até então obscura (mas incansavelmente repetida) “Remedy” dos Black Crow me ficará sempre na memória associada a esse dia, já no limiar final do interrail, quando voltávamos no comboio de Bolonha sentados nos pequenos bancos do corredor, na nitidez do pôr do sol do outro lado da janela suja,  enquanto remexias o meu ipod distraidamente - e sabe deus o que mais terás lá encontrado. Contudo lembro-me claramente disto porque reconheceste a banda e, ainda que a música em si não tenha nada de mais,  permaneceu a ideia (que desde então ficou perniciosamente na minha cabeça) de que isto anteciparia as nossas trocas de música de alguma forma. Ou então começou com o Libertango no piano. Sim, agora que penso nisso, definitivamente algo mais do que as nossas partilhas musicais começou naquela pequena igreja na Croácia.

Estas memórias associadas ainda perduram, da mesma forma que durante muito tempo tive o “Local Hero” dos Dire Straits ou o “I Talk To The Wind” dos King Crimson no fundo da minha cabeça, como uma vaga serena sempre que me encontrava contigo; ou como um álbum de Jamie Cullum (sabido de trás para a frente) passou a ganhar uma nova dimensão e a ser associado a esse dia eterno em que fomos de carro até à praia; ou como vimos Sassetti, Laginha e Burmester no CCB dos balcões de cima e foi tão, mas tão bom..

Contudo, como todas as memórias, parece não haver nada plenamente linear e por vezes pergunto-me até que que ponto as minhas recordações não são imperfeitas ou preenchidas com pormenores que não estavam lá em primeiro lugar. Existe por exemplo uma recordação que me assola recorrentemente sempre que oiço determinada lista de músicas, ainda que sobre a forma de uma imagem vaga, porque a associo a um dia de Primavera ou Verão no secundário (deveria ser qualquer coisa como Maio na minha cabeça) em que fomos pintar as telas para fora do pavilhão de artes. Lembro-me que íamos geralmente buscar umas colunas velhas de computador para meter na velha sala e alguns entretinham-se com a curadoria musical apropriada para a aula de desenho; devo ter usado essa lista apenas brevemente na altura e, naquele momento, todo o cenário pareceu fazer sentido. É uma imagem que não me remete tanto para um dia específico (embora claramente vá lá buscar todos os elementos fundamentais), mas para um período e um conjunto de sensações. Era o meu 11ºano e nessa altura sentia-me feliz, descomplexada, serena - ou pelo menos assim o imagino. Talvez todas estas associações sejam agora erróneas e imprecisas mas valerá de alguma coisa a objectividade fotográfica nestes momentos?

A verdade é que ainda que me falte por vezes a habilidade, a segurança ou conhecimento cada uma destas nossas escolhas é como um momento partilhado - e só isso já contém em si história suficiente.


Bernardo Sassetti (a quem recorro agora e sempre para as subtilezas dos estados de espírito nocturnos) e a mulher Beatriz Batarda na imagem.



domingo, 4 de novembro de 2012

miragens



Passam os dias apressadamente, a ponto de perder a nocão do tempo. De facto, sinto-me pequeno com as tarefas que me têm enrolado. Espero não perder o norte, pelo menos em quanto babysitto em regime multi-tasking, entre a saída a copenhaga, matinées no mercado de fruta, tocar guitarra para as cancões taizé, trabalho de faculdade e os filmes do Ingmar Bergman. As coisas têm-me dado um gosto especial; fiquei a trabalhar na zona de Helsingborg que mais me agrada e as coisas somam e seguem. Queria partilhar contigo uma parte menos ínfima do que tem acontecido, mas espero ser-te fiel... neste espaco da blogosfera, por si já tão repleto de mimos e afectos partilhados. Lembrei-me da tua ideia sobre o diário gráfico partilhado. Pois aqui tens uma aguarela de Helsingborg, com uma ponde pedonal imaginada. Beijo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Gordon Parks




Há algum tempo que queria partilhar contigo uma imagem que pudesse fazer alguma justiça ao nosso blog, que contasse uma história por si para a qual eu não precisaria (ou conseguiria) encontrar as palavras suficientes para justificar. Dos fotógrafos que sabia que iriam figurar aqui, mais cedo ou mais tarde, Gordon Parks veio-me imediatamente à mente - e eis que esta fotografia se torna óbvia. O teu Strombolli resumido num frame sem que fosse preciso quase acrescentar mais nada: o sul e o norte descritos nas suas mais pequenas nuances. A suave beleza escandinava (quase etérea) de uma Ingrid Bergman, em plano de fundo com a velha guarda da ilha italiana (mas que poderia muito bem pertencer a uma vila do interior da Grécia, Espanha ou Portugal com os seus velhos do Restelo) e tudo o que fica pelo meio entre estes dois extremos. 

Será que o que os separa é assim tão evidente? Cada vez que acho que sei a resposta, volto atrás e repenso.